Alegrai-vos e exultai: A Santidade ao alcance dos fiéis

Porta BatalhaA belíssima Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate do Santo Padre, o Papa Francisco, parece acabar harmoniosamente com uma velha polémica que empenhou dominicanos e jesuítas famosos ao longo da História da Igreja. O papel da ascese e da graça nas vias da Santidade, pendendo sempre a Companhia de Jesus para o esforço pessoal, e por outro lado a exaltação da graça e da mística que tiveram no padre Garrigou Lagrange O.P. e nos Dominicanos a mão na pena que fez correr a tinta de tão nobre e bela apologética. Talvez tempos em que a transtemática importava e a Teologia não descia a baixos padrões dialéticos, contaminados por ideologias políticas. Ora, o Papa Francisco consegue no seu documento sobre a Santidade um harmonioso conúbio entre a mística carmelita, citando numerosas vezes São João da Cruz e Santa Teresa de Ávila, o papel da Graça propugnada pelos filhos de São Domingos, a humidade e a simplicidade franciscana, e por fim a lógica e a luta na vida espiritual tão característica dos filhos de Santo Inácio de Loyola. É um documento de grande espiritualidade, mas que extrapola largamente as fronteiras de um tratado de vida espiritual.

O primeiro capítulo não só resume a importância e o exemplo dos Santos, a sua relação com Deus e com os homens, como recorda o chamamento de todos os cristãos à perfeição e as diferentes vias para alcançá-la, descomplicando e desmistificando a possibilidade de chegar à santidade, tornando-a atingível, possível, necessária. Para tal, faz um apelo a santificarmos os pequenos atos e a valorizarmos os pequenos gestos, os detalhes, como acrescentará posteriormente. Viver o momento presente e cada ato com amor, preenchendo os nossos gestos e palavras de caridade e de misericórdia. Introduz também temas aos quais voltará mais tarde, como o silêncio, a oração, os sacramentos, a Igreja, a fuga ao individualismo, a união e intimidade com Deus, caminhos para a santidade.

No segundo capítulo, o Papa Francisco chama a atenção para “duas falsificações da santidade […]: o gnosticismo e o pelagianismo” (n. 35). O primeiro classificado como uma fé fechada, vaidosa, daqueles que creem que “com as suas explicações, podem tornar perfeitamente compreensível toda a fé e todo o Evangelho. Absolutizam as suas teorias e obrigam os outros a submeter-se aos raciocínios que eles usam”, reduzindo os ensinamentos do Senhor a uma “lógica fria e dura que pretende dominar tudo” (n. 39). Falsos profetas que usam a religião para o seu próprio benefício. O documento lembra também um alerta de São João Paulo II para a tentação daqueles que têm uma formação mais elevada nutrirem sentimentos de superioridade (n. 45). Posteriormente, o Papa Francisco lembrará a importância da obediência ao Evangelho e ao Magistério que o guarda (n. 173), coisa que os gnósticos têm certa dificuldade e implicância. Já os pelagianos são idênticos aos gnósticos, mas naquilo que consta à vontade. Egocêntricos, elitistas, reduzem o Evangelho às suas práticas (n.57-58) e são irredutíveis em matéria de estilos e modos de viver o catolicismo. Como remédio, o Santo Padre lembra o imprescindível papel da Graça que importa conhecer e valorizar (nn. 50-56) para não acabarem “fossilizados” ou “corruptos” (n.58).

O terceiro capítulo aprofunda a passagem das Bem-aventuranças – “o bilhete de identidade do cristão” (n.63), identificando os santos com cada um dos pontos que convidam a outro estilo de vida: “ser pobre no coração” (n.70); “reagir com humilde mansidão” (n. 74); “saber chorar com os outros” (n. 76); “buscar a justiça com fome e sede” (n. 79); “olhar e agir com misericórdia” (n. 82); “manter o coração limpo de tudo o que mancha o amor” (n. 86); “semear a paz ao nosso redor” (n. 89); “abraçar diariamente o caminho do Evangelho mesmo que nos acarrete problemas” (n. 94) – tudo isto, santidade. Opondo-se a isto estão ideologias contrárias e contraditórias, tanto daqueles que pretendem transformar o cristianismo numa espécie de ONG (n. 100), como de outros que acusam de comunistas ou populistas homens e mulheres comprometidos socialmente (n.101). Para harmonizar os opostos, deve-se o primado a Deus, a valorização da oração, e a conversão do coração e da nossa vida para viver e praticar as obras de misericórdia.

Os Capítulos IV e V firmam e encerram com chave de ouro, ou chave pontifícia, um documento tão belo e profundo quanto útil à vida espiritual dos fiéis. A conceção da vida espiritual como uma luta, tão característica dos jesuítas que meditam nos seus retiros a batalha dos dois pendões, onde de um lado surgem aqueles que marcham à sombra da cruz, e do outro o demónio, “um ser pessoal que nos atormenta” (n. 160) e cuja presença na Sagrada Escritura, para o Papa Francisco, não devemos simplificar. Uma luta entre o bem e o mal a realizar em primeiro lugar em nós mesmos, as nossas paixões e as nossas tendências, procurando sempre a mansidão e a humildade, a alegria e o sentido de humor, a ousadia e o ardor apostólico, contra o encerramento nos próprios problemas e no comodismo. É um sair de si, que permitirá então uma Igreja em saída. Para tal, o Santo Padre convida-nos a pedir ousadia e confiar no Espírito Santo. E empreender luta contra o maligno, contra o qual Jesus ensinou-nos a rezar o Pai-Nosso, na certeza de que o bem triunfa sempre, pois é o Senhor quem nos dá a vitória. “O triunfo cristão é sempre uma cruz, mas cruz que é, simultaneamente, estandarte de vitória, que se empunha com ternura batalhadora contra as investidas do mal” (n. 163). A oração e a vigilância, tal como o Senhor recomendou, continuam a ser de grande valor, junto com o discernimento e a escuta da Palavra, a qual não pode ser apenas considerada como mais uma entre as devoções, mas cuja força é capaz de transformar a nossa vida.

Por fim, o Papa aponta para Maria, que “viveu como ninguém as bem-aventuranças de Jesus” (n. 176). Ela é uma Mãe que “quando caímos, não aceita deixar-nos por terra e, às vezes, leva-nos nos seus braços sem nos julgar. Conversar com Ela consola-nos, liberta-nos, santifica-nos” (n.176). E convida-nos a rezar e rezar a Ave-Maria… Palavras curtas e profundas, que permitem à Mariologia e à espiritualidade voar mais alto, nos braços de Nossa Senhora, tal como os fiéis que visam a santidade.

O Senhor ressuscitou verdadeiramente. Aleluia. Glória e louvor a Cristo para sempre!

RessuscitouEsta é a festa da nossa esperança, a celebração da certeza de que nada, nem ninguém, poderá jamais separar-se do amor de Deus.

Papa Francisco

 

Tradução minha do site da Santa Sé

https://w2.vatican.va/content/vatican/it.html

Cristo, novo Adão

Cruz BatalhaEm conferências quaresmais no ano de 1981, o então arcebispo de Munique, Joseph Ratzinger teceu belas considerações, cuja tradução partilho:

Cristo converte-se num novo Adão com o qual o ser humano começa novamente. Ele que, desde o fundamento, é o nosso ponto de referência, o filho, restabelece de novo as relações.  Os seus braços estendidos são a referência aberta, que continua aberta para nós. A cruz, o lugar da sua obediência, converte-se na verdadeira árvore da vida. Cristo converte-se na imagem oposta da serpente como diz João no seu Evangelho (Jo 3, 14).

Desta árvore vem, não a palavra da tentação, mas a palavra do amor salvador, a palavra da obediência, na qual Deus se fez obediente para oferecer-nos a sua obediência como espaço de liberdade. A cruz é a árvore da vida novamente acessível. Com a Paixão, Cristo fez obedecer o som, por assim dizer, inflamado da espada, atravessou o fogo e levantou a cruz como o verdadeiro eixo do universo sobre o qual este ficou ordenado de novo . Por isso, a Eucaristia, como presença da cruz, é a verdadeira árvore da vida que está sempre no nosso centro e convida-nos a receber o fruto da verdadeira vida. Isto significa que a Eucaristia nunca poderá ser uma simples purificação comunitária. Recebê-la, comer da árvore da vida significa, por isso, receber o Senhor Crucificado, isto é, aceitar a sua forma de vida, a sua obediência, o seu Sim, à medida do nosso ser criatura. Significa aceitar o amor de Deus que é a nossa verdade, aquela dependência de Deus que não significa para nós uma determinação estranha, e tão pouco para o filho é a filiação uma resolução estranha. Precisamente esta dependência é liberdade porque é Verdade e Amor.

Que este tempo  ajude-nos a sair das nossas negativas, do receio da aliança de Deus, da falta de medidas e da mentira da nossa “auto-determinação”, para ir em busca da árvore da vida que é a nossa medida e a nossa esperança.

E que nos encontremos de novo com as palavras completas de Jesus: o Reino de Deus está próximo. Convertei-vos e crede no evangelho (Mc 1, 15).

Como Moisés levantou a serpente no deserto, assim deve ser levantado o Filho do Homem, para que todo o homem que n’Ele crer tenha a vida eterna (Jo 3, 14 -15)

(RATZINGER, Joseph. Creación y pecado. (Navarra): Ediciones Universidad de Navarra, 2005.p. 103-104 ).