Afinal, quem escolheu o Papa?

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  Fotografia: Conclave 2013   /   L’Osservatore Romano

Neste dia em que celebramos a Cátedra de São Pedro, republico um artigo que redigi por ocasião do Conclave que elegeu o Papa Francisco.

A intervenção de Deus na História

A agitação e o frenesim próprios ao Carnaval iam longe quando uma notícia resolveu tirar o protagonismo televisivo e jornalístico da maior festa pagã ocidental. Longe, num dos menores Estados dotado de soberana autonomia, o Sumo Pontífice anunciava renunciar ao seu cargo. Sendo ele a autoridade suprema da Igreja, fazia-o livre e manifestamente, sem a necessidade da aceitação de quem quer que seja, conforme prescreve o cânone 332 §2 do Código de Direito Canónico.[1] Historicamente, outros Papas o haviam feito. Não se tratava, portanto, nem de uma novidade, nem de uma impossibilidade.

Ao longo destes dias, a Basílica com a sua praça em forma de chave tem sido o centro das atenções. Para aí dirigem-se as câmaras, os olhares e o pensamento de muitos especialistas, jornalistas e vaticanistas, tentando perscrutar e vislumbrar os acontecimentos por detrás daqueles muros sagrados. Falam de crises, desgastes, querelas… E esquecem que aquelas paredes e pedras para além das quais querem conjecturar, revelam já terem suportado um número maior de tempestades contrárias que se abateram contra a edificação que Jesus edificou sobre a rocha firme (Mt 7, 25), e que parecem repetir a famosa frase imortalizada por Cícero: “Eu vi outros ventos e enfrentei sem temor outras tempestades”.[2]

O mundo gira agora num emaranhado de suposições, enquanto a cruz que repousa no alto do obelisco permanece de pé. As casas de jogo aceitam propostas e a imprensa apresenta a biografia dos papabiles. Apesar de tudo isso, não consta que o Espírito Santo se deixe influenciar por apostas ou que seja tendente a ler os jornais. Para a eleição do novo Pontífice, existem critérios mais altos. Foi Jesus quem escolheu os Apóstolos, elegeu Pedro entre eles para apascentar o seu rebanho e ser cabeça do colégio episcopal (Jo 21, 15-17; Mt 16, 18). E adverte: “Não fostes vós que me escolhestes; fui Eu que vos escolhi” (Jo 15, 16). A Igreja tem isso bem presente quando celebra a missa “Pro Eligendo Romano Pontifice“, e posteriormente, no momento em que os cardeais se dirigem à Capela Sistina, entoando o Veni Creator Spiritus.

A história não é um desenrolar de fatos que obedece ao fatalismo inexorável das leis naturais ou ao capricho do acaso. Para os católicos, ela é iluminada “com um clarão todo especial: o da Fé”.[3] É Deus quem age, Pai, Filho e Espírito Santo. E entre as três pessoas divinas, não há dúvida nem indecisão. O Conclave fará com que Deus aja na história concreta dos homens, mais uma vez.

In: http://www.gaudiumpress.org/content/44174

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[1] “Si contingat ut Romanus Pontifex muneri suo renuntiet, ad validitatem requiritur ut renuntiatio libere fiat et rite manifestetur, non vero ut a quopiam acceptetur” (c. 332 §2).

[2] “Alios vidi ventos, alias prospexi animo procellas”. In: CÍCERO M. Tullius. Epistolarum ad Familiares libri. SJÖGREN (dir.). Leipzig, 1925. Calpurnium Pisonem, oratio, 9.

[3] Cf. Corrêa de Oliveira, Plinio. O valor de uma renúncia. In: Opera Omnia: Reedição de escritos, pronunciamentos e obras. São Paulo: Retornarei, 2008. Vol. I. p. 364-366.

A inteligência humilde e a néscia arrogância

S Tomas Aveiro“O Espírito abre à inteligência humana novos horizontes que a ultrapassam, e proporciona-lhe compreender que a única sabedoria verdadeira reside na grandeza de Cristo”.1 A inteligência é a faculdade pela qual o homem percebe a essência das coisas. Atinge o imaterial, embora dependente das faculdades sensitivas que lhe fornecem os elementos a percecionar. Consequentemente, aos homens foi dada a possibilidade de chegar ao conhecimento do Criador pelas criaturas (Sb 13, 5) e, graças à inteligência, todos têm a possibilidade de “saciar-se nas águas profundas” do conhecimento (Pr 20, 5).

É sobejamente conhecida a expressão de Santo Agostinho: “intellige ut credas, crede ut intelligas”.2 Perscruta-se a verdade para poder encontrar Deus e crer, ao mesmo tempo que o crer abre caminhos. A inteligência não deve eliminar, mas esclarecer a Fé, para que em restituição a inteligência seja também a recompensa do que crê. As duas fórmulas expressam a síntese coerente entre fides et ratio, cuja harmonia “significa sobretudo que Deus não está longe”.3 A inteligência é um dom de Deus que, entretanto, deve ser reconhecida como limitada. A nós cabe procurá-Lo parando, todavia, diante do mistério. Deus, sendo infinito, supera toda a perspetiva humana. Deve haver por isso um abandono confiante no Seu projeto.4 Embora possamos conhecer a Deus pela razão, deve-se à Sua Revelação o conhecimento sem erro. São as Sagradas Escrituras que contêm a palavra de Deus e por isso, o estudo destes sagrados livros deve ser como que a alma da sagrada teologia.5 “Porém, o encargo de interpretar autenticamente a palavra de Deus escrita ou contida na Tradição foi confiado só ao Magistério vivo da Igreja, cuja autoridade é exercida em nome de Jesus Cristo”.6 A todos os demais compete, de acordo com o Codex Iuris Canonici, que “sigam a sólida doutrina fundada nas Sagradas Escrituras, transmitida pelos antepassados e comumente aceita pela Igreja, conforme está fixada principalmente nos documentos dos Concílios e dos Romanos Pontífices, evitando profanas novidades de palavras e falsa ciência”.7

A inteligência humilde inclina-se diante das verdades da Fé, a arrogância néscia gosta de contradizê-las, de profanas novidades e da falsa ciência… Aqueles que são muito inteligentes, compreendem as limitações impostas à sua natureza e a necessidade de uma autoridade que os oriente. Se católicos, inclinam-se diante da Igreja, dos dogmas e dos ensinamentos contidos nos documentos do Magistério. Quantos santos proclamados doutores pela Igreja não se encontram nestas fileiras? Há também os inscientes de bom espírito: estes reconhecem que a verdade vai muito além deles, e chegam mais longe pelo esforço, pela admiração e pelo amor. Quantos santos não se encontram também entre estes com a sua doutrina reta, simples, sublime… Por fim, há os que se acham inteligentes, ou os arrogantes (muitos doutores, mas nenhum santo): gostam de ser eles a ditar as verdades e de contradizer toda e qualquer autoridade; não gostam dos dogmas, a não ser daquelas formulações complicadas e vazias  inventadas por eles. Entre estes, os hereges abundam.

Já D. Hélder Câmera dizia não temer nem os sábios nem os ignorantes, mas aqueles que pensam que são inteligentes… e não são.

Pe. José Victorino de Andrade

 

in: LUMEN VERITATIS, n. 4, jul-set, 2008, p. 3-4 (Adaptado).

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1) BENTO XVI. Vigília de oração com os jovens. Basílica de Notre-Dame, Paris. 12 set. 2008.

2) Sermones, 43, 9.

3) BENTO XVI. Audiência Geral. 30 jan. 2008.

4) Cf. JOÃO PAULO II. Homilia. Roma, 26 mai. 1979.

5) Cf. Epist. ad Diognetum, c. VII, 4: Funk, Patres Apostolici, I, p. 403.

6) Dei Verbum 10.

7) Codex Iuris Canonici, cân. 279, § 1.