A cultura da vulgaridade e da feiura: uma desconstrução estética, para mudar a ética

arte-e-moda.jpgTradicionalmente, são conhecidos quatro transcendentais do ser: Bonum, verum, pulchrum, unum – o bom, o verdadeiro, o belo e o uno (indiviso) –, herança filosófica e metafísica de um passado ao qual São Tomás de Aquino enriqueceu acrescentando um quinto: aliquid, isto é, o “que torna um ser diferente de outro”.[1] Esta relação dos homens com aquilo que transcende a própria matéria, na sua capacidade de Deus, permite-lhes  remeter ao Criador a bondade, verdade, beleza e unidade na variedade com que Ele fez todas as coisas. Assim, as criaturas racionais, através da contemplação e da razão, percebem em todos os seres vestígios que remetem para Aquele, que existindo desde todo o sempre, omnisciente e omnipotente, tudo criou. Os transcendentais do ser são de tal forma unos, conexos entre si, que a privação de qualquer um destes elementos leva-nos com facilidade a discernir os aspetos contrários: mau, falso, feio… Por exemplo, a advertência de que “mentir é feio” (em vez de mau ou falso), pode ajudar-nos a perceber um pouco esta ligação, através da nossa interpretação moral de uma ação que é má, e igualmente feia, falsa, divisora, igualitária…[2]. Por isso, também se afirma que o pecado é um ato desordenado, privado de Deus.  Existe, portanto, uma relação que muitas vezes estabelecemos na própria linguagem falada relativa ao conúbio dos transcendentais. Isto é fundamental para o agir reto e ordenado do homem. O bom, o verdadeiro, o belo e o uno estão num tal conúbio que, ao esbofetearmos um, agredimos todos.

De tal forma necessitamos dos transcendentais do ser, que viver numa sociedade carregada de estruturas de pecado, privada de beleza e de bondade, ou de verdade e unidade entre a pluralidade dos homens e das nações, levaria a um deficiente operar humano, que interessa somente a ideologias ateias e utopias revolucionárias, que pretendem um mundo sem Deus e despojado dos valores evangélicos para mais facilmente dominarem as mentes e imporem os seus planos. Mas se optam por atacar ou deturpar a doutrina, a falsidade dos argumentos leva ao debate e surgem os profetas  e os confessores para iluminar este mundo e testemunhar a verdade. Ao longo da História não faltaram os ataques à Igreja, que dos seus múltiplos Concílios e documentos saiu fortalecida. Não alcançando os objetivos ferindo a verdade, mas através da maldade, provocaram um choque e consequente reação animosa dos homens que levou a muitos processos revolucionários verem-se obrigados a moderar a violência e a crueldade das suas ações, tendo-se esmorecido guerrilhas e guilhotinas. A divisão causada através das guerras levou a uma destruição cada vez maior, a ponto de ameaçar a própria existência da humanidade. Era preciso encontrarem um ponto de menor reação e maior profundidade de penetração dos agentes e ideólogos revolucionários: a beleza. E é neste ponto que têm investido repetidas vezes, pois o feio escandaliza no início, mas não provoca grandes nem enérgicas reações, e tem a capacidade de ir anestesiando aos poucos as consciências. Atacando a beleza, atingem-se todos os transcendentais. Era preciso uma revolução no ensino e nas artes, de modo a ir habituando os homens ao horrendo, desordenado, extravagante, imoral.

Esta Revolução cultural, pelo menos no modo como ela se metamorfoseou e se apresenta hoje, foi pensada. Não é fruto da espontaneidade. Esta impregnação ideológica surgiria com maior força a partir da pretensão de Lukács e Garaudy de colocarem a cultura ao serviço dos ideais do proletariado para uma mudança de paradigma social. Entretanto, quem pensou este tipo de revolução, baseando-se em Benedetto Croce (que era favorável a uma arte imperfeita para combater a Aristocracia), foi Gramsci, que partiu da filosofia especulativa de Croce para torná-la praxis. A cultura, e dentro dela a arte, nos seus múltiplos meandros, do teatro ao cinema, da literatura à pintura, das artes plásticas à moda, da música à arquitetura… tudo deveria estar impregnado do pensamento materialista, tornando a filosofia uma prática que “elimina todo o resíduo de transcendência e de teologia”[3] de modo a fazer com que a sociedade tivesse um pensamento único, hegemónico, a serviço da desconstrução social e da inversão de valores, e abrir caminhos à implantação das utopias. Uma sociedade igualitária, sem religião, sem aristocracia, amoral. Imperava atacar os transcendentais, particularmente a beleza, capaz de levar o homem à contemplação, até Deus. Não seria possível levar esta revolução avante sem tirar o poder de atração ao bem, e a melhor forma de fazê-lo, de acordo com Von Balthasar, seria através da “vulgaridade da feiura”.[4] Uma desconstrução estética, para mudar a ética. Uma arte cheia do horrendo e da imoralidade para mudar a mentalidade. Mensagens subliminares ou slogans patentes para veicularem uma ideologia e edificar a utopia.

Passemos também nós da especulação à prática, à observação concreta. O que discerne, caro leitor, nos nossos dias? Na arte dita moderna, nas passarelas da moda, em edificações modernas, nos prémios atribuídos ao cinema, ou à música… De que modo se têm apresentado os cantores nos festivais? Que mensagens pretendem veicular?  E aquele edifício estranho que estão a construir? Aquela galeria onde órgãos genitais são expostos de modo explícito em fotografias, e dizem que é arte e enquanto tal não deverá ser vedada a nenhuma idade. Ou o teatro que convidava as crianças a tocarem nos corpos desnudos dos seus protagonistas… Querem expor as crianças à imoralidade? Com que propósito? Porque usam tantas artes e espetáculos para impingir a ideologia de género? Porquê tanta excentricidade e feiura? BASTA!!! Não façam de nós idiotas úteis!!! Chega de pensar que nós não devemos perceber nada de arte, que somos antiquados e não entendemos aquelas músicas, as estátuas que começaram a adornar as nossas praças ou as pinturas. Que olhamos para aquelas obras de arte e não gostámos nada, mas elas até ganharam um prémio, e mais premiadas são quanto mais veicularem o excêntrico e a hediondez. O belo, não passou a ser feio. O horrendo é que passou a imperar para levar a sociedade a um novo paradigma centrado em ideologias alheias ao bom senso e à ordem das coisas. É a machadada no transcendental da beleza, que desliga os homens e mulheres da atração pelo bem, pelo metafísico, por Deus, para condicionar as mentes e operar as revoluções. Estão a querer manipulá-lo, sem perceber. Acorde! Antes que seja tarde…

P. José Victorino de Andrade

Outros artigos sobre a beleza e a Via Pulchritudinis, clique aqui.

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[1]MARTOS, Paulo. Esplendor do bom e do verdadeiro. In: Lumen Veritatis (Revista Acadêmica). São Paulo: ACAE, n.10 Jan.-Mar. 2010. p. 34.

[2] Existe uma igualdade fundamental, no que respeita, por exemplo, à dignidade humana, mas o igualitarismo enquanto tendência a horizontalizar tudo e todos, sem respeito pela legítima hierarquia e os superiores, as autoridades constituídas e naturais, o respeito pela ancianidade e pela paternidade, pela fragilidade e pela contingência. A utopia igualitária tem provocado historicamente incontáveis perseguições, mortes e desrespeito pelos direitos humanos.

[3] GRAMSCI. Apud REALE G.; ANTISERI, D. História da Filosofia: De Nietzsche à Escola de Frankfurt. Vol. 6. São Paulo: Paulus, 2006. p. 456.

[4] Apud MARTOS, Paulo. Op. cit. p. 37.

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