A dessacralização do sacerdócio no presente relativismo religioso

Sto IvoCerta vez, assisti a uma entrevista muito interessante de um antropólogo ligado à UFBA (Universidade Federal da Bahia – Brasil), sobre a dessacralização do sacerdócio católico como fator de sucesso de outras religiões e ministros sagrados. Alegava o entrevistado que o sacerdote católico tinha-se despojado das suas prerrogativas para ser um homem normal, como qualquer outro, e que a busca do povo por quem lhes transmitisse coisas do alto, com poder e sabedoria, levava-as a consultar e a buscar o auxílio de outros intermediários ou médiuns de divindades e entidades, o que revelava o grande sucesso que estavam a obter outros cultos, sobretudo, no contexto em que falava, os de matriz Africana. Ali, no contexto celebrativo, o pai ou a mãe de santo incorporavam a entidade e começavam a profetizar e a dar soluções para os problemas e necessidades do povo. De fato, as opiniões de homens comuns e banais não satisfazem as grandes necessidades espirituais. Hoje, dessacralizados os padres, busca-se o sagrado naqueles que prometem fenómenos e milagres, pois não conseguindo o homem saciar a sua sede religiosa e tendo curiosidade sobre o outro mundo e as necessidades concretas deste, desencadeia-se uma procura por curas miraculosas, sortes e sortilégios, espiritismo, astrologia, ocultismo, espiritualidades e religiões orientais, forças cósmicas, gnosticismos, além de tantos outros charlatanismos que pululam nos nossos dias.

Contribuiu para isso, por um lado, as perseguições religiosas do século passado que levaram a cerca de 27 milhões de mártires, e o anticlericalismo remanescente, além de certa crescente e ideológica cristianofobia, o que levou ao abandono relativamente a um catolicismo, pelo menos exclusivo (muitos hoje praticam várias espiritualidades e frequentam vários cultos ao mesmo tempo), numa espécie de relativismo religioso e de espiritualidade à la carte, de quem escolhe o que lhe convém, de preferência uma moral fraquinha e uma consciência livre de sentimentos de culpa, além de uma prática que pouco ou quase nada exija aos seus aderentes. Mas boa parte da culpa também é nossa, e nós, ministros católicos, temos de bater no peito. A Igreja tem sofrido com os desmandos e escândalos de alguns, mas também com a banalização e dessacralização do ministério de outros, e não é somente no modo de vestir, nas atitudes e na linguagem, no uso dos bens materiais, na falta de sacralidade e banalização sacramental, num secularismo prático e descomprometido… quando o mau exemplo vem mesmo daqueles que deveriam tentar ser exemplares, a situação complica-se. Sem dúvida que cabe aqui lembrar quem somos nós: A palavra sacerdote vem de homo sacer, isto é, homem sagrado, mas também sacer dans, conforme etimologia presente já em Santo Isidoro (+636),[1] ou seja, o dispensador das coisas divinas, sacerdos, aquele que nos dá as coisas sagradas pelos sacramentos.[2] Sendo Cristo o único mediador, o único Sumo e Eterno Sacerdote, existe uma “participação vicária em relação ao sacerdócio único e permanente de Cristo na Igreja. Com efeito, o sacerdócio ministerial da nova aliança deriva, por participação, do sacerdócio de Cristo […] como prolongamento no tempo e extensão no espaço do sacerdócio único de Cristo”.[3] Assim, os seus ministros devem, como enumerava São Tomás de Aquino, administrar os sacramentos aos fiéis, (1 Cor 4, 1), serem dispensadores dos mistérios de Deus, consagrar o corpo e sangue de Cristo em sua memória (Lc 22, 19), perdoar os pecados (Jo 20, 23), ensinar e batizar (Mt 28, 19).[4] Tanto na consagração, quanto na absolvição, o sacerdote age na pessoa de Cristo (in persona Christi). Empresta a sua voz para consagrar e perdoar. Ele impõe as suas mãos ungidas e com elas consagra e dá a comunhão, abençoa, testemunha alianças para a vida, unge o enfermo, ergue o pecador e acalenta o fraco e oprimido…

As mãos ungidas foram durante muito tempo osculadas pelo povo de Deus grato por tantas graças e bênçãos recebidas pelas mãos do ministro. Como dizia recentemente um ancião que via o sacerdote retirar rapidamente a sua mão após um cumprimento: “Deixe a sua mão! Não o quero beijar a si. Só não me negue o ósculo a Jesus”. São Francisco de Assis dizia que se visse um sacerdote e um anjo, corria a beijar primeiro as mãos do sacerdote, pois através delas é-nos dado o perdão e a Eucaristia, dom que não foi dado aos próprios anjos.  Como lembra São Paulo, “investidos neste ministério que nos foi concedido por misericórdia […] não nos pregamos a nós mesmos, mas a Cristo Jesus”. […] Trazemos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que se veja que este extraordinário poder é de Deus e não é nosso” (2 Cor 4, 1-7). Mas não é o barro de que todos fomos feitos que deve sobressair na pessoa do sacerdote, mas o grande tesouro que lhe foi confiado, e é enquanto tal que ele deve ser respeitado e honrado. Afinal, daquele mesmo barro que recebeu um sopro de vida todos os homens são constituídos, mas os tesouros do ministério sacerdotal pertencem apenas àqueles que foram chamados e investidos de tamanha dignidade e missão pelo Sacramento da Ordem. São João Maria Vianney advertia que se percebêssemos nesta terra a altíssima dignidade com que foi revestido o sacerdote, morreríamos de amor. E um escritor argentino, Molina, prevenia para o cuidado com a maledicência e condenação do padre, pois nunca se sabe se um dia não será ele a salvar-nos no leito de morte.[5] Não nos deixemos enganar por este espírito igualitário que quer horizontalizar todos os homens para que uns poucos possam oprimir e manipular com maior facilidade os outros, enquanto massas amorfas. O padre recebeu um ministério, que o faz ser menos (minus), por estar a serviço de todo o povo, e mais, porque é um homem sagrado, que faz as vezes de Cristo Sacerdote e prolonga-o histórica e concretamente na vida dos homens, até ao fim do mundo. E para tal, não pode ser um homem qualquer…

P. José Victorino de Andrade

_____________________

[1]  ISIDÓRO DE SEVILHA. Etymologiae, Lib. VII, cap. 12, n° 21, PL 82, col. 292.

[2] WARD, Robin. On Christian Priesthood. London: Continuum, 2011. p. 86.

[3] ROCCHETTA, Carlo. Os Sacramentos da Fé. São Paulo: Paulinas, 1991. p. 396-397. Também o Vaticano II refere esta prolongação no tempo do sacerdócio de Cristo (LG 20; 21).

[4] Summa Contra Gentiles, lib. IV, cap. 74.

[5] Fato do Santo Cura de Ars e do escritor argentino em: https://bibliotecasaomiguel.wordpress.com/veneremos-os-sacerdotes/

One thought on “A dessacralização do sacerdócio no presente relativismo religioso

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  1. Gosto de ler os artigos do Sr. Padre José Andrade.
    Sigo a Novena a N. Senhora na Canção Nova.
    Procuro aproximar-me mais de Deus, para o saber amar. Para mim tem sido muito difícil…Mas procuro, procuro. Que Ele me ajude. A Fé não se compra é preciso sentir.
    Eu tenho dificuldade!

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