Uma advertência para não comprometer a compreensão da nossa existência

Relogio StrasbourgEncontramos ao longo da história da criação certa preocupação dos homens pela sua origem (Génesis). A narração Bíblica começa nos seus primeiros livros a perscrutar um passado que fosse capaz de iluminar o homem nas suas angústias e legítimas aspirações. Não houve a pretensão de elaborar um estudo histórico ou científico, tal como o entendemos hoje, mas prolongar num documento uma tradição oral transmitida ao longo de muitos séculos contendo uma “esquematização poética”,[1] um relato de um colorido maravilhoso e ao mesmo tempo tenso acerca da nossa humanidade, da relação com Deus e entre os homens. A Sagrada Escritura não é nem pretende ser um livro científico. Tal como não cabe à ciência ser religião nem salvação, não compete aos escritos sagrados cair nos meandros do pantafaçudo evolucionista. Mas isso não significa que para o homem crente ou o cientista ateu, os processos, as origens, o tempo, a evolução, a História, sejam desprezíveis e supérfluos. Negar as raízes do conhecimento contemporâneo levaria a uma ignorância quanto a toda uma herança do passado que lança as bases filosóficas e técnicas para aquilo que somos e sabemos. Também a carência de referências acerca da nossa origem, do homem e do pecado, levaria a uma perda do sentido da existência, da vida, do sofrimento, da eternidade… mas sobretudo da Redenção em Cristo Salvador. Isto conduzir-nos-ia a um vazio e uma crise existencial, para a qual a ciência jamais daria respostas concretas e satisfatórias.

Hoje, somos aquilo que somos, com altos e baixos, tal como alcançámos aquilo que alcançámos no campo da técnica, da moral e do saber devido a contingências e eventos históricos irrenunciáveis. Os heróis e os vilões fazem tanto parte da História Bíblica, da História Universal, como das estorinhas piedosas e enternecedoras. Sem essa consideração, jamais poderíamos enfrentar os maiores desafios do nosso tempo e edificar o futuro. A amnésia histórica, cultural e religiosa desprepararia os homens para o porvir e levá-los-ia à alienação da mesma forma que uma Igreja sem o depósito da Fé, conduzir-nos-ia a novas seitas. Pensar no futuro sem considerar o passado, seria como pretender erguer uma torre sem a preocupação com os fundamentos. Também no reino vegetal, enfraquecida a raiz, a planta perece, tomba, morre. Ora, um dos maiores problemas do mundo de hoje é a renúncia ao seu passado, colocando-se um tampão sobre a história da civilização, sobretudo as nossas raízes judaico-cristãs, como se a edificação do porvir dependesse de uma condenação ou sonegação do passado. E isto também atingiu a história religiosa, as verdades bíblicas, e consequentemente a história de um mundo que nunca viveu sem uma divindade, sem uma religio, no sentido daquilo que liga a terra aos céus, e cujos princípios e moral nortearam impérios e imperadores, descobertas e descobridores, homens de fé e da ciência, povos da terra… umas vezes melhor, outras pior, mas é aquilo que temos e naquilo que nos tornámos. Não somos o resultado de um fatalismo histórico inexorável ou de um acaso que por acaso tornou-se neste caso, um descaso.

Não se trata de ficar agarrado a um passado conservado, estático, mofado, mas tão pouco renunciar ao aprendizado de exemplos históricos e didáticos para o progresso dos homens. Já Chesterton lembrará o início desses novos tempos em que se temem os antigos ideais, substituindo-se por novos, pois aqueles que nos chegaram do passado começaram a causar pânico a uma geração medíocre que prefere sepultá-los num silêncio sem escrúpulos. A estratégia, segundo ele, passaria por banir os grandes ideais do passado dos jornais e dos livros de história.[2] Jean Guitton lembrará igualmente esses estranhos tempos, praticamente concomitantes à Revolução do Maio de 68, período em que lecionava na Sorbonne, e em que notava um considerável desprezo pelas coisas do passado como se isso fosse condição para edificar o futuro. Um tremendo erro, considerava ele, para a educação.[3] Na verdade, pólvora seca para acender o rastilho de uma revolução. Engana-se, pois, o mundo, quando pretende censurar tudo aquilo que lhe dá suporte e fundamento. Se a sociedade pós-moderna fosse assim tão boa, impor-se-ia por si, e não teria tanta necessidade de negligenciar ou vociferar contra o seu passado.

Tanto a Igreja como o mundo devem considerar essa tensão continua entre a resposta concreta aos homens de cada época sem necessidade, para tal, de renunciar às tradições, às glórias e aos exemplos (positivos ou negativos) do passado. Pelo contrário, eles poderão iluminar muitas situações presentes. Uma Instituição sem Tradição, ou uma humanidade que rompe com a História, e assim com a continuidade, perde-se na contradição e volatilidade de opiniões desconcertantes e alienantes, tal como na tirania dos lobbies, que desconstroem o passado para levar adiante os seus projetos. Enquanto insistem e persistem que critiquemos e desprezemos o engenho e a fé daqueles que nos antecederam, ganham tempo e espaço para impingirem-nos as mais recentes ideologias e utopias. Sem as raízes judaico-cristãs que edificaram a sociedade Ocidental, tornamo-nos uma folha em branco em que outros vêm e escrevem aquilo que querem. Testemunha-o a oração/advertência do Papa Francisco na sua viagem recente à Roménia: “Suplicamo-Vos também o pão da memória, a graça de reforçar as raízes comuns da nossa identidade cristã, raízes indispensáveis num tempo em que a humanidade, particularmente as gerações jovens, correm o risco de se sentirem desenraizadas no meio de tantas situações líquidas, incapazes de fundamentar a existência”.[4] Um perigo, para o qual os Cristãos, dentro e fora das igrejas, na sociedade espiritual e na sociedade temporal, deverão estar atentos, a fim de não cairmos nos mesmos erros do passado, alienarmo-nos no presente, e voltarmos aos tempos do paganismo no futuro.

P. José Victorino de Andrade

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[1] BÍBLIA SAGRADA: Versão dos textos originais. Fátima: Difusora Bíblica. 6 ed. Jun 2015. p. 25 (nota rodapé).

[2] CHESTERTON, G. K. Disparates do mundo. Lisboa: DIEL, 2008. Ver I Parte, capítulo IV: O medo do passado.

[3] Cf. GUITTON, Jean. Um Século, uma vida. Coimbra: Gráfica de Coimbra, 1995.

[4] PAPA FRANCISCO. Viagem à Roménia, 31 mai 2019. In: https://agencia.ecclesia.pt/portal/romenia-papa-pede-que-europa-conserve-raizes-da-identidade-crista/

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