O pecado mais ignorado pelos homens

Adao e evaExplica-nos o Catecismo da Igreja Católica que, através de imagens, o Gênesis narra um acontecimento primordial com consequências que marcam a história do homem (n. 390): a existência de uma “voz sedutora, oposta a Deus”, o “anjo decaído” (n. 391) que “radical e irrevogavelmente recusou Deus e o seu Reino” o diabo, o pai da mentira (n. 392), que seduz os nossos primeiros pais à desobediência a Deus. O primeiro pecado, chamado também Pecado Original ou Pecado das Origens, destruiu assim a harmonia criada por Deus, do homem e do mundo, o domínio da alma sobre o corpo, a partir dele a criação ficou sujeita à corrupção, e a morte entrou no mundo (n. 400). O pecado passou mesmo a inundar a terra (n. 401). Sem estes elementos, não se compreende o sofrimento e o mal neste mundo, nem a “imensa miséria que oprime os homens” (n. 403). Não adianta explicar certos fenómenos hodiernos de maneira naturalista e sem referência a essa falta de obediência à vontade de Deus e ao mau uso da liberdade que foi dada aos homens, mas através de uma verdade esclarecida à luz da Revelação Divina (n.387). O Pecado Original é “uma verdade fundamental da nossa fé”, que se esclarece e ilumina com a morte e Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo, cuja obediência e fidelidade à vontade do Pai contrapõe-se à infidelidade e desobediência dos nossos primeiros pais (n. 388). Sem pecado, não há Redenção, nem se compreende a salvação do gênero humano pelo Cordeiro de Deus, imolado por nós. Sem o Pecado Original, e a ação do tentador, não se compreende o modo como alguns maltratam os frágeis, conforme palavras do Papa Francisco: “A tendência a agredir os mais fracos é uma das marcas do pecado original, e se temos este desejo, é porque o diabo está ali”.[1]

Ora, um dos grandes problemas deste mundo é que transformaram um mistério num mito, e o pecado original parece ter sido relegado a livros de história e de catecismo para crianças onde os infantis desenhos do paraíso ainda fazem sonhar mentes consideradas pueris e ingénuas. O demónio passou também a um ser desnecessário e inventado, por ser demasiado incómodo para o homem tecnológico e científico, que apenas crê no poder da técnica e da experimentação, da matéria, olhando para anjos e demónios como se fossem mitos ou lendas. Pouco importa as referências que lhes são feitas na Sagrada Escritura, interpretada ao belo prazer de uma religião mais cómoda e menos incómoda, num momento em que as ideologias estão na moda, e inspirados por elas e não em Cristo, a caridade cristã metamorfoseia-se em múltiplas filantropias subtilmente doutrinadas num Deus misericórdia que ama a todos e quer que todos se salvem, pouco importando as minhas atitudes concretas se a minha opção fundamental partir do seguimento desses ideais, onde os fins justificam e até santificam os meios, conforme diria um Maquiavel ou Hegel. Ora, isto acarreta consequência graves e danosas para a Igreja, na pessoa dos seus pastores que vão beber à Bíblia interpretações político-sociais, naturalistas e ecológicas, transformando as obras da Igreja em pequenas ONGs. Enfraquecendo-se a moral, com a primazia do fazer relativamente ao ser, a inexistência do diabo, o mal reduzido a uma possibilidade presente nos corações dos homens, sem a luta espiritual e a oração, com o cansaço e o desânimo, desastres e desvios de clérigos surgem com muita facilidade, e a imprensa divulga-os ad nauseam…

Entretanto, a afirmação da inexistência tanto do pecado original, como do pai da mentira, acarreta ainda consequências extremamente graves e danosas para a relação entre os homens e Deus. Uma vez que o diabo deixou de existir, e o pecado original é visto como uma invenção desnecessária, o mistério do mal neste mundo, a inclinação para ele, as paixões, a concupiscência da carne e a desordem deixam de ter uma causa. E está a acontecer um fenómeno que talvez nunca tenha existido na História do Cristianismo: os homens começaram a culpar Deus, pela doença e pela morte, pelos desastres e fenómenos da natureza, pelas guerras e conflitos, pela pobreza e pelo infortúnio, pelas violações das liberdades, pelo abuso de inocentes, pelo mal-estar e pelo infortúnio, pela traição e pela inimizade… “Porque Deus permitiu? Que mal fiz eu a Deus? Se eu sempre fui uma pessoa boa, porque Deus permitiu que isto acontecesse comigo? Porque Deus permite tanto sofrimento neste mundo?” O Santo e Inocente passa a ser o criminoso e o culpado, e com facilidade novamente crucificado… O que estavam à espera? Se antes as tragédias eram atribuídas à desordem introduzida pelo pecado original, aos pecados atuais do homem, a satanás e a seus sequazes, o homem livre de todas essas superstições e mitologias passou a queixar-se de Deus. E depois de desiludir-se com o próprio Criador, muitos preferem que Ele nem exista. Consequentemente, tem de desaparecer também o homem à sua Imagem e Semelhança. Comprometida a dignidade do homem, permitem-se os maiores crimes contra os inocentes e desprotegidos como o aborto e a eutanásia, a fome e a violência, os abusos e violações. E se o mal está no homem, bons passam a ser os animais, que não têm a capacidade ou a liberdade para fazer o mal, uma vez condicionados à sua natureza, enquanto o homem tem essa capacidade. Compreende-se então a presente zoolatria… uma verdadeira adoração aos animais de estimação e certa rejeição pouco misericordiosa e compreensiva relativamente aos erros humanos. A Caritas in Veritate de Bento XVI é clara nesta matéria:

“Por vezes o homem moderno convence-se, erroneamente, de que é o único autor de si mesmo, da sua vida e da sociedade. Trata-se de uma presunção, resultante do encerramento egoísta em si mesmo, que provém — se queremos exprimi-lo em termos de fé — do pecado das origens. Na sua sabedoria, a Igreja sempre propôs que se tivesse em conta o pecado original mesmo na interpretação dos fenómenos sociais e na construção da sociedade. ‘Ignorar que o homem tem uma natureza ferida, inclinada para o mal, dá lugar a graves erros no domínio da educação, da política, da ação social e dos costumes’” (n. 34).

O desaparecer da visão judaico-cristã relativamente ao mal, está a levar a grandes desequilíbrios na sociedade Ocidental. É por isso que vejo com grande preocupação sacerdotes e professores de teologia que começam a acreditar que o pecado original foi inventado por Santo Agostinho e que vivemos neste mundo sem o pecado ou a concupiscência da carne, isto é, a inclinação para o mal. Defender que vivemos simplesmente um dualismo entre o bem e o mal, é cairmos num velho e ultrapassado chavão pagão, onde tudo fica sujeito a critérios subjetivos e onde o mal se mescla ao bem de modo originário. Deus, em vez de criar as coisas boas, criaria o homem com esta mistura, o que não é próprio ao Sumo Bem. Recentemente, alguns seminaristas contaram-me que há professores da Universidade Católica Portuguesa que reprovam os alunos que acreditem na existência do pecado original fora do pensamento agostiniano. Ora, é muito grave não só que acreditem em semelhante barbaridade, como o imponham aos demais futuros sacerdotes. Para tal não podem partir da Bíblia, nem da Patrologia, nem da Cristologia, nem do Catecismo da Igreja Católica, nem terem alguma vez rezado a Liturgia das Horas onde, sobretudo por ocasião da Páscoa, somos brindados com extraordinárias catequeses batismais dos autores cristãos dos primeiros séculos, antes de Santo Agostinho, que relacionam o pecado de Adão com a Redenção do Novo Adão. Na Bíblia, múltiplas são as referências do apóstolo São Paulo. É ele quem afirma que “pela desobediência de um só homem, todos se tornaram pecadores” (Rm 5, 19); “Tal como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim a morte atingiu todos os homens” (Rm 5, 12). E contrapõe: “Assim como, pelo pecado de um só, veio para todos os homens a condenação, assim também, pela obra de justiça de um só, virá para todos a justificação que dá a vida’ (Rm 5, 18). Também a Primeira Carta aos Coríntios é clara: “assim como por um homem veio a morte, também por um homem vem a ressurreição dos mortos. E, como todos morrem em Adão, assim em Cristo todos voltarão a receber a vida” (1Cor 15, 21-22).

Santo Agostinho levou a um alto expoente a doutrina que desde os primórdios da Igreja vigorava e era já corrente entre os Padres da Igreja que o antecederam, conforme nos revela o Catecismo e a própria práxis desde os primeiros tempos: “Depois de São Paulo, a Igreja sempre ensinou que a imensa miséria que oprime os homens, e a sua inclinação para o mal e para a morte não se compreendem sem a ligação com o pecado de Adão e o facto de ele nos ter transmitido um pecado de que todos nascemos infetados e que é ‘morte da alma’. A partir desta certeza de fé, a Igreja confere o Batismo para a remissão dos pecados, mesmo às crianças que não cometeram qualquer pecado pessoal” (n. 403). Uma vez que as crianças não têm o pecado atual, pela sua inocência, não se compreenderia o mandato de Jesus para batizar a todos (Mt 28, 19), nem a prática dos Apóstolos quando batizavam famílias inteiras (Act 16, 15; 16, 33; 1Co 1, 16), nem a prática da Igreja quando hoje batiza aqueles que ainda não chegaram ao uso da razão, nem as orações da Igreja que são realizadas no ritual do Batismo. Um sacerdote que negue o pecado original, perde o sentido e o significado das palavras e dos gestos do rito do batismo das crianças. Desde os primeiros tempos que a Igreja nas suas catequeses falava desse banho regenerador, o sacramento da remissão dos pecados onde é sepultado o homem velho para nascer o homem novo, regenerado em Cristo (Jo 3, 5; Cl 2, 12-13; Gl 6, 15; Tt 3, 5). Por isso Orígenes, anterior a Santo Agostinho, ao escrever no início do Séc. III sobre o Batismo, dirá que era tradição recebida dos apóstolos batizar os infantes, pois “eles sabiam que existe em todo o nascido o estado de pecado, que deve ser lavado através da água e do Espírito” (Comentário Romanos 5, 9). Acrescenta também que toda a alma infusa na carne está manchada pelo pecado, sendo necessário o Batismo para a remissão dos pecados, conferido até mesmo às crianças, porque se não houvesse nada nelas pertinente a perdoar, o batismo seria então supérfluo (Homilia Levítico 8, 3). Também São Cipriano de Cartago nas suas cartas a Fidus lembra que as crianças recém-nascidas não são batizadas por qualquer pecado pessoal, mas por terem nascido na mesma carne de Adão, contraindo o contágio da antiga morte (Cartas 64, 5).

A doutrina sobre o Pecado Original não se encontra somente em autores que falaram sobre o batismo. Muitos outros, que antecederam Santo Agostinho, delinearam e falaram sobre aquela verdade que pertencia desde os primórdios à fé da Igreja. Santo Irineu, entre o Séc. I e o II, explicava que descendemos todos de Adão, e enquanto tal, herdamos o pecado, pois através de Adão transgredimos Deus ao não observar o mandamento, e possuímos uma dívida, todos menos Aquele que nos resgatou (Contra as Heresias 3, 22 . 4; 3, 23. 2; 5, 16. 3). Tertuliano lembrará que por causa da transgressão do primeiro homem ficámos entregues à morte e que todos atingidos por esta origem tornaram-se transmissores da condenação (Testemunho da Alma 3, 2). Este testemunho não pertence somente aos padres latinos, como também aos Gregos. São Gregório de Nissa, por exemplo, explicava que todos os homens herdaram de geração em geração o pecado de Adão, menos Cristo, totalmente isento, até porque nasceu de uma Virgem (Tratado sobre a Virgindade). Parece que os padres Gregos eram todos da opinião que o homem estava ferido pelo pecado de Adão, e havia a necessidade da Redenção, do novo Adão, Cristo, e esta era uma ideia sempre presente na sua luta contra a heresia Pelagiana que negava a necessidade da graça divina e o pecado original, e esta era a doutrina ainda que discreta nos Padres da Igreja Gregos, mas eloquente nos Latinos.[2] Santo Agostinho levou a doutrina do Pecado Original a um elevado expoente, reunindo a sabedoria da Igreja e as cartas paulinas pelas quais tinha tanto apreço e fácil acesso. Ele não inventou nada, mas refletiu sobre tudo, reuniu os conhecimentos da época e deu uma resposta às heresias de Pelágio. O Pelagianismo, ao negar o Pecado Original, prova que essa era uma doutrina consagrada pela Igreja, pois ninguém nega aquilo que não existe, e a oposição firme e teológica dos Padres da Igreja revela que para eles, não era novidade, mas uma realidade presente desde a própria doutrina dos Apóstolos, presente já na Didaquê.

Pela presença desta doutrina na tradição e no depósito da fé, o Concílio de Trento elevou o Pecado Original a um dogma de Fé. Seria preciso um novo Pelagianismo no século XXI para negar esta verdade. Vejamos algumas das consequências mais diretas para a vida da Igreja, caso se continue a negar o Pecado Original: Maria não é a Imaculada, pois a doutrina lembra que ela foi preservada da mancha do Pecado Original, e ninguém pode ser preservado daquilo que não existe. A criação como um ato de bondade por um Deus que é o Sumo Bem perde o sentido, pois as culpas não estariam no mau uso da liberdade e no pecado das origens do homem, mas na imperfeita obra de Deus, e então a revolta contra Ele por vivermos este dualismo do bem e do mal. O Batismo de crianças sem o uso da razão terá de acabar, pois sem o pecado original, não tem sentido lavá-las de um pecado que não cometeram. A missa como renovação do sacrifício de Cristo, embora de modo incruento, perde o sentido, pois a morte de Jesus passa a uma barbaridade histórica da morte de um líder incompreendido, e abandona-se a doutrina da Redenção, pois não havia nada a redimir. Atentaríamos contra o mistério de Cristo, conforme o Catecismo: “A doutrina do pecado original é por assim dizer ‘o reverso’ da Boa Notícia de que Jesus é o Salvador de todos os homens, de que todos têm necessidade da salvação e de que a salvação é oferecida a todos graças a Cristo. A Igreja, que tem o senso de Cristo, sabe perfeitamente que não se pode atentar contra a revelação do pecado original sem atentar contra o mistério de Cristo” (n. 389. Negrito meu). Se atingimos a Deus Criador, ao Seu Filho Jesus Cristo, ao Espírito da Verdade, aos sacramentos e a Maria, teremos consequências terríveis, não só devastadoras para a Igreja, mas igualmente tremendas para o homem, funestas para a sociedade. A doutrina do Pecado Original, onde o mal, o pecado e a morte não têm a última palava, mas são vencidos, continua a ser a mais sapiente e iluminadora para a vida dos homens que gemem e choram neste vale de lágrimas, mas sobem o monte da esperança e o pico da santidade com que se chega ao Céu, carregando a cruz, e seguindo Jesus. Como canta o Precónio Pascal desde tempos imemoriais: Ó feliz culpa, a dos nossos primeiros pais, que mereceu tal e tão grande Redentor…

P. José Victorino de Andrade

_________________

[1] Homilia na casa Santa Marta. 8 de Janeiro de 2018. Disponível em: https://www.vaticannews.va/pt/papa-francisco/missa-santa-marta/2018-01/papa-na-missa-na-casa-santa-marta—agredir-os-fracos–uma-das-m.html

[2] Jugie, M. Julien d’Halicarnasse et Sévère d’Antioche : La doctrine du péché originel chez les Pères grecs. Revue des études byzantines, n. 138, 1925. p. 129-162.

2 thoughts on “O pecado mais ignorado pelos homens

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  1. Salve Maria!
    O quão grave, é esta realidade já tão próxima de todos nós.
    Como quando infelizmente ao nos aproximar-nos da confissão, após uma maravilhosa peregrinação à Fátima, dias de intensa oração, e meditação e para alcançarmos a indulgência plenária da recitação e meditação da via-sacra, decorrente dentro da mesma semana e aquando os Virgo Flos Carmeli, ainda não eram sacerdotes, foi preterida à uma pesquisa “suposta” mas urgente na Internet, e o sacerdote não me confessou, tive que tirar mais uma hora do almoço e procurei um outro sacerdote….como outras vezes, em que me tentaram persuadir em confissão que Deus é Misericordioso, e que não haveria pecado.
    Graças à Devoção do Sagrado Coração de Jesus e ao Coração Imaculado de Maria, nunca acedi a essa tentação…
    E outra comunidade, em que contaram-me que catequistas que acreditando nesta filosofia, preocupa-me o que ensinam às crianças e jovens, noutros casos, catequistas que duvidam da maternidade de Maria Santíssima e de sua Imaculada Conceição.
    A consequência é esta, o mundo em que vivemos hoje…
    Graças a Deus, o nosso sacerdote disponibiliza-se a confessar qualquer dia, todos os dias ou com marcação,
    Deus tenha Misericórdia, de todos nós!

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