A perda de sentido do pecado e do sagrado

SantuarioEstá à vista de todos. Escrever um artigo sobre uma realidade palpável e incontornável parece desnecessário. Vai aborrecer os birrentos de plantão, aqueles que colocam como lei suprema a sua própria vontade, hedonista e subjetivista, e levar muitos velhos do restelo a coifar a barba e retornar à paranoica lengalenga sobre a proximidade do fim do mundo. Não pretendo aqui atiçar velhas agoirentas beatas nem despertar a indignação dos caprichosos birrentos, que tudo criticam, mas eles mesmos não podem ser contrariados. Mas o carácter profético do batismo, reforçado pelo ministério, faz com que eu não possa ficar calado diante dos tempos que se vivem onde a banalização e a indiferença tomam de assalto os locais sagrados. Se relatasse os maiores absurdos que vejo a cada dia dentro de um Santuário, com facilidade escandalizaria o mais incauto. Desde aquele casal de desnudos, em fatos de banho ridiculamente exíguos, que revelavam o seu corpo tatuado devido a uma suposta promessa, que os fez despirem-se em frente à capelinha das aparições, passando pelas meninas (já grandinhas) que se dedicavam a colocar um peluche de um gorila feio e peludo diante do crucificado, enquanto tiravam fotografias e riam, ridicularizando Nosso Senhor Jesus Cristo. E se nessas duas vezes ouve uma reação e quem lhes chamasse a atenção, não faltou quem visse naquilo uma intolerância, e não gostaram, pois julgavam que a norma do é proibido proibir que brotou dos desmandos do Maio de 68 devia invadir os templos sem encontrar opositores. Enquanto isso, pelo recinto de oração, com o calor, algumas pessoas deitam-se pelo chão para aproveitar um bom banho de sol, outras fazem questão que a vitamina D penetre por quase todo o corpo, que de tão descoberto que está deixa muito pouco à imaginação de qualquer homem ou mulher com a libido desregulada e a mente tarada… Um pouco mais à frente um pai com o seu filho menor tiram a t-shirt e passeiam-se em tronco nu dentro do Santuário. Um bambino que já vai aprendendo a ser cretino, levado por um cretino que nunca deixou de ser bambino… Todos eles parecem desconhecer ou debochar da parte da mensagem de Fátima que fala de modas que viriam e ofenderiam muito a Nosso Senhor, de vestir com modéstia e com pudor, ou dos pecados da carne como aqueles que mais levariam ao inferno. As pessoas simplesmente ignoram esta parte da mensagem… para umas, ignorância culposa, (não é que não sabem, simplesmente não querem saber), para outras, uma profunda ingenuidade.

Lia recentemente um documento, não tão antigo como não são antiquadas as aparições, de D. Alberto Cosme do Amaral, falecido Bispo de Leiria, sobre o Santuário de Fátima: Apelo de Deus – Resposta do homem (1978), onde ele relata a frequência de peregrinos ao Santuário, local que ele acreditava nunca vir a ser inundado pelo turismo, nem por gente interessada tão somente em fotografias, mas que acreditava permanecer um local de peregrinação e oração, onde as confissões fossem autênticas, os milagres e as curas frequentes, e as conversões abundantes, como narra prodigamente o Cón. Formigão nos seus escritos. O falecido bispo e o apóstolo de Fátima enganaram-se. 40 anos passaram desde o documento e muita coisa mudou. Não tenhamos ilusões, quando passa a imagem de Nossa Senhora, e entoa-se o comovente cântico do Adeus, metade do povo não leva mais o lenço branco aos olhos lacrimejantes e não o eleva a acenar à Mãe Celestial que é recolhida à Capelinha, mas ergue um telemóvel preto ou cinzento, por vezes com capas excêntricas e bonecada pendurada, para tirar uma fotografia à cabeça do que está em frente, desfocada e distante do momento real que está a ser vivido, destoando por completo a beleza que havia em milhares de lenços brancos que há não muito tempo tornavam os acontecimentos litúrgicos e as multidões em espetáculo para os anjos e para os homens. Sendo mais turistas que peregrinos, de conversões ou milagres pouco se houve falar. Até porque poucos são os interessados em tais eventos. Interessa é cada um tentar tirar a melhor selfie, por vezes em poses sensuais, onde a Basílica do Rosário serve de pano de fundo para atiçar os amigos do tinder e do instagram à sensualidade e à vida boa do protagonista. E se a missa está a decorrer, ainda olham com desagrado. O padre que ali celebra está a estragar o momento. Outros, nem se importam com ele ou com quem reza. Importa sair de Fátima com energias positivas… e talvez um bom almoço. Como se de um centro budista, um cristo cósmico num santuário panteísta, se tratasse. A pedra filosofal do asfalto que pisam os que por aqui passam parece ser suficiente, para recarregar baterias, como dizem alguns, não sendo necessário sequer um terço ou a missa. Se é para encher, é o almoço, que a alma vai na mesma ou pior do que chegou… Quantas vezes assistimos impotentes aos cães que por aqui são passeados pelos donos e vão marcando o seu território, em locais onde alguns peregrinos ainda ajoelham e rezam, ou aqueles que aproveitam o declive e o espaço amplo para andar de bicicleta, trotinete e skate. No outro dia, um homem dedicava-se a fazer um churrasquinho dentro do recinto de oração. Como se faltassem espaços no entorno para tudo isto. O que falta é o senso comum, ao menos o bom senso.

Sabemos que não faltam sabichões, aqueles que acham que a sua opinião resolve tudo: Porque o Santuário permite isto ou aquilo? Porque não fazem algo? – Seria preciso  então explicar que já tentaram colocar seminaristas e voluntários com capinhas à porta do Santuário, tentando fazer ver às pessoas que não estavam a entrar na piscina ou na praia, embora sem lhes dizer tal coisa, mas fazendo-lhes notar que este é um local sagrado, emprestando-lhes uns tecidos leves e discretos para cobrirem-se parcialmente. O resultado acabou por ser desastroso, com as ofensas mais desagradáveis e por vezes até mesmo a ameaça à integridade física dos pobres colaboradores. É a tirania da libertinagem. Pouco importa se a liberdade de uns termina onde começa a dos outros, a existência de normas externas ou sequer de boa educação, quando tem de prevalecer sobre tudo e todos os caprichos subjetivos. Como têm afirmado os últimos Papas, inclusive o Papa Francisco, parece que o maior pecado de hoje é a perda do sentido de pecado. Não se aceita uma norma moral, se ela vai contra a tirania da volúpia. O orgulho e a sensualidade são duas forças motrizes de uma revolução cultural e moral que ninguém parece conseguir parar. Este artigo não chega a essa pretensão, não tem sequer essa capacidade. Mas se cada um pode fazer e dizer o que quer, parece-me que a liberdade de expressão não me pode coibir de dizer aquilo que penso, e sobretudo, testemunho. Será que o mundo um dia perceberá que foi longe demais e do ridículo em que caiu? Resta-nos rezar e confiar, sabendo que estamos a atravessar momentos históricos tremendos que aqueles que nos precederam, há 40 anos, não foram capazes sequer de imaginar. Tal como presentemente me é difícil perceber como será isto daqui a 40 anos. Se a Providência me der a graça de estar vivo, com quase 80 anos, espero estar nesse momento a viver o triunfo do Imaculado Coração de Maria, prometido em Fátima. Que voltas o mundo vai dar, não sei. De uma coisa estou certo, o mundo continuará a girar, e a cruz permanecerá de pé!

P. José Victorino de Andrade

 

Ver também neste site: A tal moda de hoje que ofende a Deus

One thought on “A perda de sentido do pecado e do sagrado

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  1. “(…)sabendo que estamos a atravessar momentos históricos tremendos que aqueles que nos precederam, há 40 anos, não foram capazes sequer de imaginar. Tal como presentemente me é difícil perceber como será isto daqui a 40 anos. Se a Providência Divina me der a graça de estar vivo, com quase 80 anos, espero estar nesse momento a viver o triunfo do Imaculado Coração de Maria (…)” juntos esperamos, e continuaremos a esperar essa graça que, só de imaginar, nos tira o fôlego: O Triunfo do Imaculado Coração de Maria sobre todos os corações da Igreja Militante.

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