Para a mulher ser exemplo e exaltada, ela não precisa estar no templo ordenada

AyamonteA Bíblia foi a grande inspiradora da emancipação e da liberdade da mulher![1] O Génesis considera-a colaboradora e companheira, semelhante ao homem, complementaridade deste (Gn 2, 18-24). O Antigo Testamento exalta a mulher, não só pela sua fecundidade como pela sua intercessão: Rebeca intercede pelo filho Jacob, ou a Rainha Ester pela salvação do seu povo. Enaltece-lhes o heroísmo e as orações: Judite decapita Holofernes e canta em ação de graças a vitória sobre os assírios e o fim da tirania; Débora cantará os feitos de Jael ao matar Sísara, o que irá ditar a derrota das tropas cananeias. A mesma profetiza Débora estará entre uma plêiade de líderes femininos que esteve à frente dos destinos do povo, tais como a viúva de Alexandre Janeu que teve o cetro dez anos; a mãe do rei Asa que governou em nome do filho, e a mulher de Hircano Macabeu.[2] A mulher enfrenta com nobreza, coragem e fidelidade as dificuldades próprias ao seu tempo, como reconhecemos em Sara, Rute, ou mesmo na viúva de Sarepta. E como eram difíceis aqueles tempos para a mulher. A literatura sapiencial reconhece-lhes, tantos valores: os Salmos, o livro dos Provérbios, o Cântico dos Cânticos, Ben Sirá.[3] A relação de Deus com Israel chegou a ser comparada pelos autores inspirados com a relação entre o marido e a esposa. Jeremias, Isaías ou Ezequiel vão usar essa imagem para evidenciar o amor de Deus pelo seu povo. A mulher torna-se o símbolo não só de todo o Israel, como da humanidade e da criação.[4]

No Novo Testamento, Cristo denomina-se Ele mesmo o Esposo (Mc 2, 19). A sua Esposa Mística é a Igreja, cujas núpcias o Apocalipse contempla (Ap 19-21). Deus fez-se homem, abraça a nossa humanidade, para resgate de muitos (Mt 20, 28; Mc 10, 45), homens e mulheres, fazendo-se em tudo igual a nós, exceto no pecado (Heb 2). Jesus não é um ser assexuado, fez-se carne num homem, mas veio a este mundo através de uma mulher (Gl 4,4), Maria, sua Mãe, ornada desde os primeiros séculos pelos Padres da Igreja como a coredentora, Aquela que colaborou em tudo para a obra da redenção: a partir do seu sim aos planos de Deus, às dores que une às do seu Divino Filho na cruz. Eis a complementaridade e a colaboração de que já falava o livro do Génesis. Cristo veio ainda libertar as mulheres de todos os preconceitos e elevá-las a uma condição como nunca se tinha conhecido na História. Liberta-as de condições humilhantes, protege-as, cura-as. Faz-se acompanhar pelas mulheres, confia-lhes ministérios, dá-lhes importância, envia-as…[5] Só uma inimizade foi colocada por Deus na Sagrada Escritura: entre a mulher e a serpente, entre a descendência de uma e de outra. Eva, mãe de todos os viventes, simbolizava a maternidade dos filhos e filhas de Deus que encontram na nova Eva, Nossa Senhora, Mãe de Deus e da Igreja, a Mãe a quem é confiada toda a humanidade: “Mulher, eis o teu filho” (Jo 19, 26). Ela surge triunfante sobre o dragão enganador cuja cabeça esmaga (Gn 3, 15); é a Rainha, na visão de João coroada de estrelas (Ap 12). A Sagrada Escritura, do primeiro ao último Livro, vislumbra-a triunfante. Maria é a criatura colocada acima de todas, pois nenhuma outra é Imaculada, nem a nenhuma outra foi confiado um papel tão importante na história da salvação. Por isso, a Nossa Senhora, na Igreja, concede-se o culto de hiperdulia, isto é, a especial veneração que só se deve a Maria, um culto que não se presta a nenhum outro ser criado. Ao Deus criador, uno e trino, e só a Ele, deve-se o culto de latria, isto é, de adoração. Deus, Ser espiritual, a quem a Escritura chama de Pai, mas cujo amor é até comparado ao de uma mãe (Is 49, 14-15).[6]

Um dos temas que tem emergido no contexto do papel das mulheres na Igreja é a possibilidade do ministério ordenado ser conferido a elas. Na verdade, o sacerdote, participa do único sacerdócio de Cristo, age na pessoa de Cristo,[7] mas não deve prescindir da colaboração e da presença de santas mulheres para o auxiliar no seu ministério ordenado, no qual todos têm participação e deveres pelo sacerdócio recebido no batismo. Todos os batizados, homens e mulheres, são sacerdotes, reis e profetas, conforme ensina o Catecismo (n. 1268; 1546). “Toda a comunidade dos crentes, como tal, é uma comunidade sacerdotal. Os fiéis exercem o seu sacerdócio batismal através da participação, cada qual segundo a sua vocação própria” (n. 1546). Explica-nos a Moral Sacramental que “essa participação no sacerdócio de Cristo através do carácter batismal e da confirmação permite ao simples fiel receber os demais sacramentos, confessar com valentia e fortaleza a fé de Cristo e atuar como ministro próprio no sacramento do matrimónio”[8] no qual o sacerdote é a testemunha, principal e qualificada, mas os nubentes são os ministros. O sacerdócio comum dos fiéis permite, por exemplo, a pais e mães, padrinhos e madrinhas, avôs e avós, qualquer autoridade ou qualquer cristão, pedirem e receberem a bênção de Deus: Deus te abençoe meu filho (ou minha filha). O sacerdote é o mediador entre Deus e os homens, e nesse sentido, o sacerdócio comum, recebido no batismo, torna todos os homens e mulheres medianeiros do grande amor de Deus, e nesse campo, encontramos em Maria a medianeira por excelência,[9] exemplo para todos. Também as mulheres na sua maternidade e no seu modo de ser, deverão constituir uma luz que brilhe e acalente esta humanidade tão dividida. “Maria é assim, em pessoa, a realização plena daquilo que nós chamamos de ‘sacerdócio comum’. Comum a todos os batizados, mas, no projeto eterno de Deus, comum a todos os seres humanos”.[10]

Entretanto, o sacerdócio ministerial, recebido no sacramento da ordem, o é para o serviço do povo sacerdotal (n. 1551), à semelhança de Cristo com os seus discípulos, que por sua vez os envia e pede-lhes que façam o mesmo (Jo 13). Enquanto aqueles e aquelas que receberam o batismo participam como membros do corpo místico de Cristo, que é a Igreja, o sacerdote, em virtude do sacramento da ordem, age na pessoa de Cristo Cabeça (n. 1548). Um ministro ordenado não pede a bênção de Deus, como faria o fiel leigo, mas ele dá a bênção. O leigo fá-lo de modo deprecativo, enquanto o ministro ordenado o faz de modo impetrativo, ou seja, o primeiro pede, suplica, o segundo obtém, consegue. O ministro ordenado, neste caso os bispos e os padres que colaboram com a sua missão, consagram e perdoam na pessoa de Cristo, no Sacramento da Eucaristia e da Reconciliação, ou seja, fazem as vezes, ou para ser mais exato, atuam na pessoa de Cristo. Por isso, a Igreja continua a ordenar somente o varão, à semelhança de Cristo, dos varões escolhidos por Ele para constituir o colégio apostólico, que por sua vez escolheram os seus colaboradores. Explica o Cardeal Luiz Ladaria, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, que “Cristo quis dar este sacramento aos doze apóstolos, todos homens que, por sua vez, comunicaram isso a outros homens. A Igreja sempre se reconheceu vinculada a esta decisão do Senhor, que exclui que o sacerdócio ministerial possa ser conferido validamente às mulheres”.[11]

É importante conhecer a opinião do Papa Francisco quanto a esta questão, uma vez que várias vezes o Santo Padre se referiu à importância de várias mulheres tais como a sua avó, ou algumas religiosas, no seu caminho de fé. Ele lembra que às mulheres foi dado serem as primeiras testemunhas da ressurreição, sendo o testemunho uma das suas principais missões. No regresso da JMJ no Rio de Janeiro, durante a entrevista no voo, afirmou que “uma Igreja sem as mulheres é como o Colégio Apostólico sem Maria” e enfatizou que “a Igreja é feminina, é esposa, é mãe”. No dia 12 de outubro de 2013, recebendo os membros do Pontifício Conselho para os Leigos afirmou que, na Igreja, “é importante perguntar-se que presença tem a mulher […] gosto também de pensar que a Igreja não é o Igreja, é a Igreja. A Igreja é feminino, é mãe” e devemos “aprofundar a nossa compreensão disso”. No dia 7 de fevereiro de 2015 ao Dicastério da Cultura, o Papa pediu que as mulheres não se sintam hóspedes, “mas plenamente partícipes das várias esferas da vida social e eclesial”. E enfatizou a urgência de “oferecer espaços às mulheres na vida da Igreja”, favorecendo “uma presença mais ampla e incisiva nas comunidades” com um maior envolvimento “nas responsabilidades pastorais”. Nas homilias que faz diariamente na Casa Santa Marta tem lembrado o papel da mulher na transmissão da fé à semelhança de Jesus que veio por Maria (26 de janeiro de 2015); a coragem das mulheres (31 de maio de 2016) e a falta de harmonia que existe sem elas (9 de fevereiro) pois trazem a “harmonia que nos ensina a acariciar, a amar com ternura e que faz do mundo uma coisa bonita”.[12]

As portas abertas pelo Papa Francisco, e as que se abrirão futuramente conforme as disponibilidades e as compreensões, terão certo impulso devido à reflexão teológica pedida por ele em matéria de diaconisas, partindo certamente do Novo Testamento que fala de Febe “diaconisa da igreja de Cencréia”, o que tem levantado alguma celeuma e más interpretações ou notícias deturpadas. Na epístola aos Romanos (16, 1), São Paulo pede que acolham essa irmã (talvez a portadora da sua carta) que parecia dedicada ao provimento de várias necessidades da Igreja tanto de carácter prático como económico, não se referindo o Apóstolo dos gentios a qualquer característica intrínseca ao ministério ordenado, não lhe conferindo sequer qualquer responsabilidade litúrgica, mas sócio-caritativa. A própria palavra διάκονος (diakonos), do grego, era atribuída aos servidores e, especificamente no Novo Testamento, a quem socorria os pobres com esmolas.[13] O Papa Francisco, ao regressar da Armênia, mostrou-se irritado com os meios de comunicação social quando leu “em diversos veículos de comunicação manchetes como ‘a Igreja abre a porta às diaconisas’, quando a verdade não era essa”.[14] Estudar o papel das diaconisas nos primeiros tempos da Igreja significa entender com precisão aquilo que era realizado por elas, o que pode exatamente significar o contrário de abrir as portas à ordenação de mulheres. Essa comissão deverá compreender e precisar o trabalho das denominadas diaconisas, palavra que apesar de possuir uma terminologia idêntica a diáconos, hoje, poderá tanto na prática quanto semântica e teologicamente significar algo muito distinto. Por isso foi formada uma comissão de estudo, para acabar com tantas confusões. São João Paulo II já tinha encerrado as portas da ordenação às mulheres no documento Ordinatio Sacerdotalis,[15] e o Papa Francisco também recordou que essa decisão persiste: “sobre a ordenação de mulheres na Igreja Católica, a última palavra é clara, foi dada por São João Paulo II e permanece”.[16] Como para o mundo de hoje não basta a autoridade do Papa, esperemos que os estudos encerrem polémicas que entretanto continuarão sempre e irracionalmente a pertencer a ideologias e a extremismos, fracos em razão e desligados da história. Enquanto isso, o papel da mulher na Igreja e o exemplo e exaltação de Maria, continuarão a ir sempre mais além…

P. José Victorino de Andrade

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[1] Sobre isto, ver: https://aportesdaigreja.com/2017/08/15/a-biblia-inspiradora-da-emancipacao-e-da-liberdade-da-mulher/

[2] Loc. cit.

[3] Ver MULHER no Índice Bíblico-Pastoral da BÍBLIA SAGRADA. Lisboa/Fátima: Difusora Bíblica, 2015. 6. ed. p. 2094.

[4] HENNAUX, Jean-Marie. Le Sacerdoce: humain et divin, masculin et féminin. Paris : CLD Éditions, 2008. p. 86.

[5] BÍBLIA SAGRADA. Op. cit.

[6] Ver https://aportesdaigreja.com/2017/07/13/porque-nos-chamamos-e-somos-filhos-de-deus/

[7] Ver o decreto sobre o ministério e a vida dos sacerdotes Presbyterorum Ordinis do Concílio Vaticano II. Disponível em: http://www.vatican.va

[8] ROYO MARÍN, Antonio. Teologia Moral para Seglares. Vol. II. 5 ed. Madrid: BAC, 1994. p. 163. (Tradução minha)

[9] Sobre a mediação do amor de Deus e a excelência dessa mediação em Maria ver: HENNAUX, Jean-Marie. Op. cit. p. 162.

[10] Loc. cit.

[11] In: L’Osservatore Romano. 29 de maio de 2018. Disponível em: https://www.vaticannews.va/pt/vaticano/news/2018-05/ordinatio-sacerdotalis-luiz-ladaria-ordenacao-de-mulheres.html

[12] Extraído do excelente artigo realizado por Alessandro Gisotti, Silvonei José no site oficial de Notícias do Vaticano, disponível em: https://www.vaticannews.va/pt/papa/news/2018-03/francisco-e-o-papel-das-mulheres-na-igreja.html

[13] PEREIRA, Isidro. Dicionário Grego-Português. 8. ed. Braga: Apostolado de Imprensa, 1990. p. 131.

[14] Ver o artígo: https://www.acidigital.com/noticias/papa-francisco-irritado-por-cobertura-da-midia-sobre-diaconisas-99672

[15] Em 1994, São João Paulo II escreveu a carta apostólica Ordinatio Sacerdotalis, sobre a ordenação sacerdotal reservada apenas aos homens. Nesse texto, o Papa Wojtyla assinala que “a ordenação sacerdotal, pela qual se transmite a missão, que Cristo confiou aos seus Apóstolos, de ensinar, santificar e governar os fiéis, foi na Igreja Católica, desde o início e sempre, exclusivamente reservada aos homens”. Nesse documento, o Pontífice também escreveu: “para que seja excluída qualquer dúvida em assunto da máxima importância, que pertence à própria constituição divina da Igreja, em virtude do meu ministério de confirmar os irmãos, declaro que a Igreja não tem absolutamente a faculdade de conferir a ordenação sacerdotal às mulheres, e que esta sentença deve ser considerada como definitiva por todos os fiéis da Igreja”. In: https://www.acidigital.com/noticias/papa-francisco-sobre-sacerdocio-feminino-a-ultima-palavra-foi-a-de-sao-joao-paulo-ii-15910

[16] Loc. cit.

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