Porque nos chamamos e somos filhos de Deus

A filiação, do latim filiatio – palavra da família de filius (filho) – significa o ato de filiar algo, ou seja, tornar filho. O termo afiliar, semanticamente, está relacionado a questões de reconhecimento e associação legais. Embora haja certa tendência para diferenciar afiliar – uma determinada associação entre duas pessoas (jurídicas) ou de alguém a uma determinada entidade -, e filiar – que é o ato de reconhecer, inclusive juridicamente, alguém como filho ou o vínculo relativamente a um grupo ou instituição -, ambos possuem traços semânticos comuns. Postas de lado essas querelas linguísticas, o caminho fica livre para entender melhor a questão do ponto de vista sobrenatural.

E para tal, nada como partir da Sagrada Escritura, a fim de tomarmos as múltiplas riquezas aí presentes, que possibilitar-nos-ão evidenciar desde logo a essência teológica de uma filiação adotiva.1 E esta compreende-se à luz de Deus enquanto criador, por um inefável ato de sabedoria e amor, que se manifesta e comunica connosco à semelhança do amor de um pai para com o seu filho (Os 11, 1), e até mesmo de modo mais forte, se comparado ao de uma mãe (Is 49, 14-15).

Jesus é o Filho amado (Mt 3, 17), consubstancial ao Pai. Consequentemente, nós não somos da mesma “substância” do Pai, pois seríamos deuses. O “Filho único de Deus” (Jo 3, 16) é Nosso Senhor Jesus Cristo. Ele mesmo distinguiu a sua filiação relativamente à dos discípulos, ensinando-lhes: “vós, quando rezardes, dizei assim: Pai nosso” (Mt 6, 9); e sublinhou essa distinção: “o meu Pai e vosso Pai” (Jo 20, 17).

Entretanto, pelo batismo recebemos a graça de Deus e tornamo-nos membros da Igreja. A Santíssima Trindade faz a sua morada na alma do batizado, que ao receber o sacramento é incorporado a Nosso Senhor Jesus Cristo. Tornamo-nos filhos de Deus, por adoção, pertencendo assim a uma nova família, muito mais ampla, que tem a Deus como Pai, e os demais batizados como irmãos em Cristo. A Confirmação ou Crisma enraíza-nos ainda mais nessa filiação divina. São Paulo afirma na sua epístola aos Romanos que o Paráclito dá testemunho ao nosso espírito de que somos filhos de Deus, fazendo-nos clamar: “Abbá, ó Pai!” (Rm 8, 15-16). Participamos assim daquela única e irrepetível relação que Jesus tem com o Pai.

Pe. José Victorino de Andrade

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1 Ver Ex 4,22-23; Dt 1, 31; Sb 2, 18 e 18, 13; Os 11,1.

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