O problema do mal e a solução de Santo Agostinho

Antes da sua conversão, Santo Agostinho aderiu ao maniqueísmo, o qual ensinava um dualismo radical: o poder absoluto do mal – o Deus do Antigo Testamento, e o poder absoluto do bem – o Deus do Novo Testamento. Julgou achar neste dualismo a solução do problema do mal e, por consequência, uma justificação para a sua vida. Depois de maduro exame crítico e da desilusão com as palestras de Fausto, Bispo Maniqueu, abandona o maniqueísmo, abraça a filosofia e o neoplatonismo que lhe ensina a espiritualidade de Deus e a negatividade do mal. Certo dia, enquanto meditava num jardim sobre a sua situação espiritual, ouviu uma voz próxima à porta que dizia: “Tolle, lege“, abriu ao acaso as Epístolas de são Paulo e passou a sentir que “todas as trevas da dúvida se dissipavam” e a leitura trouxe-lhe a luz que a sua alma não conseguiu encontrar nem no maniqueísmo nem no neoplatonismo. Mais tarde, recebe o batismo em Milão das mãos de Santo Ambrósio, cuja doutrina e eloquência muito contribuíram para a sua conversão.

Entretanto, um dos problemas que mais que o atormentavam era o enigma do mal, provocado pela solução dualista dos maniqueus, que antes lhe impedia o conhecimento do justo conceito de Deus e prejudicava a vida moral. Santo Ambrósio tinha-lhe desfeito as objeções maniqueístas contra a Escritura mas não tinha conseguido deixá-lo plenamente satisfeito com a explicação sobre a natureza e a origem do mal. Procurava uma explicação racional: se Deus é perfeito, como pôde criar a imperfeição? Se Deus é bom, como pôde produzir ou permitir o mal?

Dedicou-se então a resolver o problema do mal e a marcar uma diferença fundamental entre o pensamento grego e o pensamento cristão. Se todas as coisas são criadas por Deus que é perfeito, todas elas são boas e o mal não é substância, como pensavam os maniqueus, mas simples privação do bem. Nega assim a realidade metafísica do mal. O mal não é ser, mas privação do ser, como a obscuridade é a ausência da luz. Explica-se assim o chamado mal metafísico, que não é verdadeiro mal, porque não tira aos seres o lhes é devido por natureza. Conforme Santo Agostinho, “toda natureza (natura) que pode tornar-se menos boa, todavia, é boa. De fato, ou bem a corrupção não lhe é nociva, e nesse caso ela é incorruptível; ou bem, a corrupção atinge-a e então ela é corruptível. Vem a perder a sua perfeição e torna-se menos boa. […] Mas se ela for incorruptível será melhor do que a corruptível. E se ela for corruptível – já que a corrupção não pode atingi-la senão tornando-a menos boa, ela é indubitavelmente boa. Ora, toda natureza ou é corruptível ou incorruptível. Portanto, toda natureza é boa. Denomino “natureza” o que habitualmente se designa pela palavra “substância”. Consequentemente, posso dizer que toda substância é Deus ou procede de Deus, e assim tudo o que é bom é Deus ou procede de Deus”. (De libero arbitrio, II, cap. 13, 36b)

Quanto ao mal físico, Santo Agostinho procura justificá-lo mediante um velho argumento, digamos assim, estético: o contraste dos seres contribuiria para a harmonia do conjunto porque nem todos são igualmente bons: enquanto criados, participam da natureza do nada e tendem, por isso, a mudar e essa mudança é, por vezes, corrupção, pois “no mundo dos seres corpóreos, desde a harmonia das constelações siderais até o número de nossos cabelos, encontra-se a bondade e a perfeição de todas as coisas ordenadas de modo gradual e maravilhoso” (De libero arbitrio, III, cap. 5, 16). Assim, as desarmonias e contrastes têm a aparência e os efeitos do mal, mas este mal deriva da discordância das relações entre as coisas e não das coisas em si mesmas, as quais concorrem, sem exceção, mesmo as que nós consideramos más, para o admirável concerto do universo. Por outro lado, o mal físico, como as doenças, os sofrimentos e a morte, tem significado bem preciso para quem reflete na fé: é a consequência do pecado original, ou seja, é consequência do mal moral. A corrupção do corpo que pesa sobre a alma não é a causa, mas a pena do primeiro pecado (cf. G. REALE, D. Antiseri, Hist. da Filosofia I, Paulus, p. 455. 456).

 

Compilado e adaptado de vários textos por Pe. José Victorino de Andrade

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