O guru ideológico do Maio de 68

Sartre
Jean-Paul Sartre. CORDON PRESS

É muito comum encontrar autores que atribuem determinados progressos civilizacionais a certas revoluções que se foram dando ao longo da História. Entretanto, quando lemos os fatos concretos, assustamo-nos com as atrocidades cometidas no momento em que os ideólogos das mudanças sociais não olharam a meios para atingir os seus fins, nem à lavagem cerebral de massas que, uma vez manipuladas, ajudaram a conquistar os objetivos contestatários. Foi assim no Maio de 68, quando as filosofias estruturalista e niilista-existencialista entraram em confronto com os poderes instituídos para impor o seu programa libertador de toda e qualquer autoridade, com o slogan “é proibido proibir”, e transformaram as ruas de Paris em verdadeiros campos de batalha onde os escombros permaneciam armas de arremesso. A liberdade que se diz ter sido conquistada, constituiu tão somente um desvio para a libertinagem, um mundo sem Deus, sem os seus representantes, centrado no hedonismo e no egoísmo de cada tirano do seu próprio ser, sem regras nem proibições. Hoje, se um filho for concebido, sem ser desejado, é eliminado; se os vícios são normalizados, têm de ser descriminalizados; se algo impede quem quer que seja de ser quem quiser, o Estado dá todas as garantias e paga as cirurgias para que ninguém fique com birras. O Homem tornou-se um bebezão grandão, teimoso e obstinado, sem juízo nem razão, que ninguém pode contrariar, senão… faz uma revolução. Mas, quantos se darão conta que assim está mais próximo da sua autodestruição? Conheça, pois, um dos filósofos que impulsionou esta mentalidade hodierna, uma verdadeira bomba-relógio civilizacional.

De acordo com Daniel Cohn-Bendit, que é uma das figuras mais proeminentes da Revolução estudantil do Maio de 68, os jovens que engrossaram as fileiras contestatárias haviam quase todos estudado as obras de Sartre.[1] Jean-Paul Sartre foi considerado um escritor e filósofo genial, niilista-existencialista, que segundo Simone Beauvoir com quem teve uma relação estranhamente aberta, detestava responsabilidades e autoridades, hierarquias, deveres e responsabilidades, no fundo detestava “o lado sério da vida”.[2] Reflexos da poltronice em que vivia, as obras de Sartre foram ferramentas úteis para influenciar à revolução contestatária e à libertação dos poderes e da moral vigentes.  Nelas, nega o ser e o ser de onde surge o nada, que nada é. Para Sartre, até mesmo a existência no outro só o é na medida em que não é a minha. “Com esta dupla negação a existência dos outros torna-se coisa, ao mesmo título de todas as outras coisas do mundo: nega-se e anula-se como existência”.[3] No fundo, atinge o cristianismo naquilo que é fundamental, Deus, YAHWEH, Aquele que é, que tudo criou, e o homem enquanto imagem e semelhança. Desvinculado de um Criador e de um Senhor, e da dignidade de pessoa enquanto imago Dei, tornar-se-ia mais fácil apelar a uma liberdade que deveria significar uma rotura com a visão judaico-cristã, toda e qualquer autoridade e norma moral e o conceito de pessoa em si. Consequentemente, para Sartre, não se podem encontrar para a liberdade individual outros limites além da própria liberdade. Esta passa então a confundir-se com a existência, com o próprio indivíduo, e nada poderá contrariá-la, pois cabe a cada um construí-la. Não por o homem ser deus, pois para Sartre, ele não passa de um deus falhado. Mas porque o seu projeto é que deve ser determinante, e este não deve ser imposto por nada, nem ninguém.[4] É livre, e subjetivo. De acordo com o Papa emérito, Bento XVI, “entre as liberdades pelas quais a Revolução de 1968 lutou estava a total liberdade sexual, uma que não mais possuía normas. A vontade de usar a violência, que caracterizou esses anos, está fortemente relacionada a esse colapso mental”.[5]

Entretanto, o próprio Sartre não foi exemplo de um homem verdadeiramente livre, pois manteve-se submisso a ideologias totalitaristas, tendo mesmo privado com Che Guevara e viajado à China durante o regime de Mao Tse-tung devido a compromissos com o regime repressivo. Um homem que não se queria vergar diante de dogmas considerou enquanto tal o materialismo histórico ao qual aderia com poucas ou nenhumas reservas. Foi um “idiota útil” do marxismo no seu tempo. No fundo, a liberdade pregada era ideologicamente condicionada. Causa até certa surpresa a forma como um pensador do calibre de Sartre, que fez a apologia da autoconstrução identitária, inspirando a revolução sexual e dando as bases à ideologia de género, onde cada um deve tornar-se aquilo que quer ser e não aquilo que é, trocando a realidade originária, natural e preceptiva, para uma construída, convivesse mesmo assim com aqueles que mais desrespeitaram as liberdades individuais e os Direitos Humanos neste último século, regimes e ditadores que perseguiram e assassinaram aqueles que possuíam qualquer desvio sexual, ou quem se opusesse aos seus regimes totalitário. Uma práxis que não combinava com a sua doutrina. Cumpria, todavia, desconstruir a sociedade ocidental para torná-la permeável às utopias. Nesse sentido, exigir o impossível, tornou-se um dos motes do Maio de 68. Era preciso reinventar o homem. Torná-lo absolutamente livre, desde que ideologicamente condicionado pelo Marxismo, o “saber eterno” ou a “escolástica da totalidade” segundo Sartre.[6] As utopias revolucionárias incendiavam toda uma geração cansada da guerra e do colonialismo. Desejosa de despojar-se dos espartilhos sociais e morais para esbardalhar-se na líbido e no LSD. Sexo, drogas e rock’n’roll…

A doutrinação ideológica desenvolvida por Sartre junto aos estudantes foi capaz de incendiar massas incautas e influenciáveis, para o bem e para o mal. Contou-me uma testemunha presencial, estudante na Sorbonne no final da década de 60, que certa vez uma turba de jovens alucinados, depois de ouvirem o guru das libertinagens subjetivas, começaram a ameaçar destruir o Louvre para acabar com as obras do passado em nome da nova autonomia de pensamento. Até aí as massas revolucionárias estavam dispostas a ir. Foi então que Sartre, talvez notando que tinham ido longe demais, moderou os ânimos e levou-os a desistirem do seu intento dizendo que aquelas obras também representavam revoluções do passado. Claro que a força e a destruição faziam parte do projeto, mas deveriam gradualmente passar para o campo cultural e social, destruindo a arte e a conceção do ser no presente.

P. José Victorino de Andrade

 

Leia como se transpôs as novas conceções filosóficas do papel para a sociedade, através do protesto público e do recurso à violência. A revolução contestatária do Maio de 68, no artigo: A fraudulenta evolução que esconde uma Revolução

__________________

[1] CORRÊA, Erick Quintas. A repercussão do maio de 68 no pensamento de Michel Foucault. Revista Angelus Novus. USP, Ano VI, n. 9, 2015. p. 176.

[2] BEAUVOIR, Simone. A idade forte. Apud REALE G; Antiseri D. História da Filosofia. Vol. III. São Paulo: Paulus, 1991. p. 605.

[3] A citação e algumas ideias em ABBAGNANO, Nicola. História da Filosofia. Vol. XIV. Lisboa: Presença, 1970. p. 253-256.

[4] Ibidem. p. 257-263.

[5] In: https://aportesdaigreja.com/2019/04/12/o-tal-texto-do-papa-emerito-criticado-pela-imprensa/

[6] REALE G; Antiseri D. História da Filosofia. Vol. III. São Paulo: Paulus, 1991. p. 612.

3 thoughts on “O guru ideológico do Maio de 68

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  1. Olha Pe. Jose… Li o texto e acredito que a geração atual está em grande conflito nesta tal liberdade. Sofrem com ela…

    Esforço-me em ajudar a esta geração a ter novamente, uma certa influencia por Jesus… Como estão cheias destas outras influências humanas, só Jesus será o diferencial. Mas pra isso, essa juventude precisa do senso critico. Com Jesus no dialogo, uma porta se abra para conversões saudáveis à partir de escolhas justas

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  2. Incrível, aqui na nossa Lisboa, no post 25 de abril, eu fiz cadeiras de Sartre, na Faculdade de Letras, adorava o que ele escrevia e, por ironia do destino, cada vez me sentia mais cristão.
    Mais tarde ensinei-o aos meus alunos, assim o programa mandava, e lá me ficava a pena daquele homem que estava convencido de que era livre e se vergava ao peso duma suposta corrente de libertinagem religiosa, sexual e filosófica tão tiranicamente sufocante.
    O ópio da geração de maio 68…mas, como todas as drogas deixou marcas…
    Tempos e espaços, Paris com as suas utópicas raias de modernidade, tão tristes e ainda com tantos efeitos nefastos. Claustrofóbico era o seu existencialismo ateu, no fim faltava-lhe uma janela para o Infinito…
    Enfim, tempos idos com fermentos de ideologias pouco inteligentes e inteligíveis, mas só embarca nelas quem quer…
    A Filosofia é para pensar e não para seguir às cegas o que cada um dos seus pensadores se lembra de eleger como máxima…resultado de traumas, talvez, mt ao jeito de Freud…para não falar do que por decreto filosófico estava convencido de ter morto Deus, mas um facto é que estas teorias foram mt bem adaptadas à sede de poder e de prestigio que alguns ambicionavam …
    Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, e hoje ainda são aproveitadas para outras tantas variantes de poder económico, ideológico e institucional.
    Os “mestres da suspeita” nem suspeitaram do seu eventual declínio.
    Por isso e mt mais, os “aportes da Igreja” são umas “excelentes aulas” a não perder, a ler e reler, porque se aprende, apreende e ainda porque mt boa gente não sabe destes temas pq nos são sonegados pelo “politicamente correcto”.

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