A introdução da utopia marxista em certas teologias políticas

fecDepois das várias tragédias que tornaram o comunismo uma verdadeira máquina de destruição da ordem social e desrespeito com os direitos humanos, que levaram a genocídios e a uma página negra que a História não poderá jamais apagar, foi preciso repensar uma forma de suavizá-lo, uma revolução doce, mas progressiva, total, eficaz. Adler já tinha visto no materialismo histórico e dialético de Marx e Engels princípios heurísticos e projetos sociais para o futuro, inspiradores para levar a cabo uma investigação da vida social e um programa científico.[1] Caberia entretanto a Gramsci certa reelaboração do marxismo de modo a introduzi-lo o mais possível em todas as áreas. Ele parte da filosofia especulativa para a prática. Compreender as realidades concretas para formar uma consciência revolucionária útil, tornada práxis. Um marxismo entrelaçado com todos os elementos, penetrando em todas as partes. Para isso, Gramsci incitava a difundir e impregnar de ideais marxistas os sindicatos, partidos, igrejas, escolas e a imprensa, difundindo de modo incessante e cotidiano a sua doutrina e transformando de modo hegemónico as crenças, os valores, os ideais, a cultura, etc. Ele não prescinde de intelectuais, homens bem formados, responsáveis por pensar e difundir a doutrina, organizar as massas e dirigir o movimento revolucionário, próximos ao povo, persuasores permanentes, congregando cada vez mais homens e proletários, “idiotas úteis” aos ideais marxistas. Para levar adiante esse plano, era necessário um desgaste dos poderes existentes, entre eles o da Igreja. Para Gramsci “o socialismo ‘é a religião que deve matar o cristianismo’”.[2] Não pretendia, todavia, um embate direto. Ele sabia que os mártires dariam força à religião. Era melhor uma infiltração de utopias e agentes marxistas, e a pressão de uma hegemónica consciência revolucionária na cultura, educação e na sociedade em geral, e ir desgastando a Igreja, numa morte lenta, perversa, programada.[3]

Enquanto Gramsci escrevia o seu programa revolucionário na prisão, a escola de Francoforte e os seus fundadores e ideólogos marxistas, contrários à extrema-direita nazista – que chegou mesmo a obrigar os seus membros a uma fuga, o que levou igualmente a uma maior difusão geográfica das suas ideias –, levaria para o campo da teologia as utopias revolucionárias socialistas. Horkheimer, um dos fundadores do Instituto Social, afirmava que “a tarefa da filosofia não é a de regressar à tradição objetivista do passado, mas antes a da destruição do presente por meio de um ‘progresso na direção da utopia’”.[4] Mais tarde, arriscar-se-ia mesmo a introduzir as suas doutrinas nas matérias teológicas. Todavia, caberia a um teórico utopista de certa forma ligado a esta escola, Ernst Bloch, a esperança filosófica da expansão marxista ao campo religioso, realizando uma ligação da luta de classes, do protesto, com o campo religioso. Para Bloch, mais do que a interpretação marxista de que a religião é o ópio do povo, ela era também para esse ideário um protesto, um “suspiro da criatura oprimida”, lamento por uma situação atual e esperança futura de um céu que Bloch quer na terra.[5] O filósofo inspirou a partir da sua utopia muitos pensadores que propunham certa teologia da esperança, num conúbio com o pensamento de Marx. O teólogo protestante Moltmann viu na obra de E. Bloch um “instrumento hermenêutico adequado para a interpretação da Revelação, harmónica e compreensível para os homens de nossos dias”.[6] Também Pannenberg elogiava o camarada Bloch por ter ensinado a compreender os meandros em que se deviam basear para lançar um novo paradigma na vida e no pensamento dos homens. A realidade escatológica transpunha-se e materializava-se na primazia de uma nova terra, o que devia levar a edificar um futuro mais justo e menos sofredor, utopia que parecia realizável com a filosofia marxista. Para Metz, seria necessário sair da habitual perceção da fé para uma conceção baseada nas promessas escatológicas de liberdade, paz e justiça, que envolvesse assim os cristãos nas questões sociopolíticas.[7] Além destes teólogos protestantes, Ernst Bloch influenciaria um sacerdote e teólogo católico, o dominicano Gustavo Gutiérrez e a chamada Teologia da Libertação.

A esperança milenarista, ou utópica, “própria das classes populares, em sociedades onde prevalecem a desigualdade, a injustiça, a exclusão e a miséria”, está presente na chamada Teologia da Libertação.[8] Aqueles que pensaram esta Teologia imiscuíram-na com a utopia marxista em oposição ao avanço e à ideologia neo-capitalista, e assim o neo-marxismo de Gramsci, Bloch entre outros “que se tinha revitalizado graças ao pensamento da escola de Francoforte”, levava consequentemente a que “tudo tivesse que ser neo-marxista […] o ídolo era a revolução e era necessário que a Igreja se submetesse ao novo ídolo”.[9] Aqueles que optaram por uma abertura da Igreja a esta ideologia marxista reconfigurada pelos seus ideólogos e aplicada aos mais variados campos sociais, culturais, e mesmo religiosos, acabou por revelar-se desastrosa, uma vez que “caiu-se num cientificismo nas análises teológicas e  exegéticas; numa desmitologização do sagrado, numa dessacralização dos ritos e dos sinais, numa vida mais ‘mundana’ que espiritual dos agentes pastorais e num reconhecimento excessivo da autonomia individual que levou a um afastamento das normas morais”.[10] Os ideólogos desta revolução na Igreja levaram a dois problemas terríveis para a Fé dos homens: os erros teológicos, denunciados pela Santa Sé na Libertatis Nuntius, uma vez que estavam em contradição com “a Igreja, a tradição, e a sua própria vocação”, tornando-se alguns dos religiosos políticos ou até mesmo guerrilheiros… E outro problema, “pastoral: a teologia da libertação converteu-se num modo implacável de esvaziar igrejas”.[11] De um modo ou de outro, havia sido posto em marcha o plano revolucionário de Gramsci e dos seus sequazes para matar o Cristianismo.

P. José Victorino de Andrade

Ver mais sobre a Teologia da Libertação em: https://aportesdaigreja.com/2018/01/27/a-teologia-da-escravidao-e-a-verdade-libertadora/

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[1] REALE, Giovanni. História da Filosofia. Vol. 3: Do Romantismo até nossos dias. 3 ed. São Paulo: Paulus, 1991. p. 794-795.

[2] Ibidem, especialmente pp. 830-836.

[3] Loc. cit.

[4] ABBAGNANO, Nicola. História da Filosofia. Vol. XIV. Porto: Presença, 1970. p. 336-337.

[5] REALE, Giovanni. História da Filosofia. Vol. 3: Do Romantismo até nossos dias. 3 ed. São Paulo: Paulus, 1991., p. 818-819.

[6] Idem; Antiseri, D. Historia da filosofia. Vol. 6: de Nietzsche à Escola de Frankfurt. São Paulo: Paulus, 2006. p. 374.

[7] Ibidem. Ver Capítulo XX.

[8] CHAUI, Marilena. Convite à filosofia. São Paulo: Ática, 2000.  p. 387.

[9] “Puesto que la lucha se centraba de manera especial entre la ideología anglo-sajona bajo la máscara de neo-capitalismo, y la ideología marxistacomunista que se presentaba como el neo-marxismo de E. Bloch, Althusser, Marcuse, Luckács y Gramsci, y que se había revitalizado gracias al pensamiento de la escuela de Francfort o Teoría Crítica, en América Latina parecía que todo tenía que ser neomarxista, el cual, por lo demás, tuvo gran influencia en la teología de la liberación. El ídolo era la revolución y era necesario que la Iglesia se sometiera al nuevo ídolo”. (GALEANO, Adolfo. El acontecimiento Medellín en sus cuarenta años. El conflicto de las ideologías. In: Cuestiones Teológicas, vol. 35, n. 84, 2008. p. 259).

[10] “Se cayó en un cientifismo en los análisis teológicos y exegéticos; en una desmitologización de lo sagrado, en una desacralización de los ritos y signos, en una vida más ‘mundana’ que espiritual en los agentes pastorales y en un reconocimiento excesivo de la autonomía individual que llevó a un alejamiento de las normas morales”. (ARBOLEDA MORA, Carlos. Experiencia y testimonio. Medellín: UPB, 2010. p. 19).

[11] “Por supuesto, la cuestión no es nueva, ya hace años alguien tan inteligente como el Cardenal Ratzinger se dió cuenta que el mayor problema de la Teología de la Liberación no eran tanto los errores teológicos –denunciados por el Dicasterio que el presidía con la Instrucción Libertatis Nuntius– que ponían a sus autores en serios problemas con la Iglesia, con la tradición, con su vocación, con el sentido común y si se descuidaban con la salud de su alma (cuántos se han secularizado o se han hecho políticos colgando los hábitos, o incluso guerrilleros…). No, el gran problema era más bien pastoral: La Teología de la Liberación se convirtió en un modo implacable de vaciar iglesias” (ROYO MEJÍA, Alberto. Los efectos de la Teología de la Liberación en Latinoamérica. 12 nov. 2010. Disponível em: <http://infocatolica.com/?t=opinion&cod=7740&gt;. Último acesso em 16/11/2010).

One thought on “A introdução da utopia marxista em certas teologias políticas

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  1. “o ídolo era a revolução e era necessário que a Igreja se submetesse ao novo ídolo” as consequências dessa submissão ao “novo ídolo” resultaram numa crise vocacional nos seminários. Conheci pessoalmente dois seminários no Brasil que se transformaram em grandes hotéis. Também conheci outros que foram reduzidos a 30% de funcionamento pelo mesmo motivo: crise vocacional…

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