Quando a tirania das minorias ameaça a verdade e a liberdade

SocCertas minorias pensantes tornaram-se habilidosas em manipular as massas que pouco ou nada sabem, ou limitadas a condicionado e manipulado saber. É o triunfo dos porcos,[1] descrito por George Orwell, onde os burros leem e alguns creem, todos os bichos se dizem iguais para que alguns possam ser mais, aqueles que têm dentes são doutrinados para uma vez incitados, morder a quem quer que os possa contradizer. Os animais de carga trabalham incondicionalmente, com muito pouco ou quase nada, até à exaustão. As galinhas cacarejam a quem lhes dê importância. Os anafados grunhos, esses, vivem luxuosamente, como quem a todos mente e condiciona a parca gente, na corrupção e exploração de todo o povão, enganando toda uma nação. É curioso como estes lamaçais persistem nas atuais democracias. Tempos houve, é verdade, em que maiorias apoiaram líderes despóticos e cruéis, revelando que as maiorias também se podem enganar ou deixar iludir nas suas escolhas, conforme constatamos nos mais variados desastres históricos que se tornaram terríveis experiências para a dignidade e vida dos homens.[2] Hoje, em regimes ditos democráticos, são as minorias de extremos opostos que sonham com aquelas maiorias que se tornam verdadeiros pesadelos para a comunidade internacional. E se o mundo já esteve dividido por extremos geográficos, Oriente-Ocidente, Norte-Sul, e tanto Leão XIII, Pio XII e sobretudo Paulo VI revelaram-no nos seus documentos e pronunciamentos sociais, hoje, o globo parece ameaçado pelos extremismos políticos e ideológicos, capazes de uma destruição e de um ódio que as rivalidades intercontinentais e nacionais não lograram.

Com rótulos suaves e traiçoeiros de tolerância e de respeito, surgem agora certas filosofias que ameaçam o bem-estar e o equilíbrio social de uma herança histórico-cultural judaico-cristã para impor novas ideologias criadas em laboratórios filosóficos, repensadas e encapsuladas em cor de rosa após o trauma rubro de totalitarismos e retrocessos civilizacionais que se verificaram e verificam ainda em várias nações que gemem e sofrem com a fome e a repressão. Essas novas cores políticas que formam hoje um arco-íris conjuram um pluralismo que impõe unilateralmente as suas ideias, a intolerância dos autoapelidados tolerantes que esmaga a seus pés instituições e tradições, o ensino da ciência natural que se opõe à sobrenatural, da contranatura como se fizesse parte da natura, do materialismo como idealismo e do ódio ao óbvio. Vieram com passinhos e aparência de cordeiros, mas eram lobos disfarçados, que cada vez mais arreganham os dentes e radicalizam-se diante de uma sociedade anestesiada e amordaçada que olhando para um lado e para outro desperta lentamente sem saber como lidar com os extremismos que comprometem seriamente a liberdade e a paz. E quando o equilíbrio se desequilibra, puxado por certos extremismos, a natureza é absolutizada, a zoolatria institucionalizada, a família depredada e a vida desrespeitada. A desordem passa a ser ordenada, e a ordem vilipendiada, a ética desaparece numa falsa estética e a moral torna-se um mal. Tudo é subjetivo. As ideologias dogmatizadas e o sagrado dessacralizado. O teísmo é confrontado pelo ateísmo e diluído no panteísmo. O mundo deu um giro. Ficou de pernas para o ar… mas a cruz, vitoriosa, essa, permanece de pé. Sinal de esperança para o nosso mundo engelhado no terrorismo das ideologias extremistas e que traz consigo uma promessa: “as portas do inferno jamais prevalecerão” (Mt 16, 18).

É próprio da herança bíblica recusar todo e qualquer ídolo, seja ele humano ou material, ou qualquer dogmatismo ideológico filosófico ou político, pois só a Deus devemos adorar, e só o Filho tem palavras de vida eterna. Para os Cristãos, a solução para os problemas desta humanidade não se encontra numa ideologia ou em qualquer líder humano, mas em Jesus Cristo e na sua Palavra definitiva e orientadora desta humanidade. “A mensagem cristã liberta da idolatria, de todo o ‘vitelo de ouro’: nada daquilo que é histórico, nenhuma instituição e ‘construção’ humana pode apresentar-se trajada de ‘absoluto’”.[3] A Igreja é por isso mesmo uma das maiores opositoras a totalitarismos e despotismos, e os seus membros pagaram com a sua própria vida as incoerências das políticas tirânicas de tantos imperadores e monarcas. S. João Batista e o seu testemunho em relação às ilicitudes de Herodes, ou S. Tomás Morus, padroeiro dos políticos,[4] relativamente aos desvarios caprichosos de Henrique VIII, são uma prova dessa presença profética, contrária ao poder das trevas e às estruturas de pecado, acabando por pagar com a própria vida uma verdade que não podiam omitir. O Papa Francisco reconhece ainda nos nossos dias ataques à religião e situações de perseguição aos cristãos, muitas vezes com “níveis alarmantes de ódio e violência” e “generalizada indiferença relativista, relacionada com a desilusão e a crise das ideologias que se verificou como reação a tudo o que pareça totalitário” (Evangelii Gaudium, n. 61). A expansão e desenvolvimento do âmbito social e pluralista da nossa sociedade deve aproveitar as extensas e firmes raízes cristãs, e não partir para uma equivocada e persecutória desconstrução civilizacional e generalizado desenraizamento cristão. E para tal, contar com a experiência, a voz moral e o respeito pela dignidade humana que sempre constituiu apanágio dos cristãos comprometidos com a edificação do Reino. Ainda que em minoria, fazem a diferença do amor, não o terrorismo da ideologia.

P. José Victorino de Andrade

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[1] ORWELL, George. Animal Farm: A Fairy Story. Penguin Modern Classics, 2000.

[2] Ratzinger, Joseph. Fé, Verdade, Tolerância. Lisboa: Uceditora, 2007.

[3] “Il messaggio cristiano libera dall’idolatria, da ogni ‘vitello d’oro’: nulla di ciò che è storico, nessuna istituzione e ‘costruzione’ umana può presentarsi mascherata da ‘assoluto’”. ANTISERI, Dario. Laicità: Le sue radici, le sue ragioni. Soveria Mannelli (Calabria – It.): Rubbettino, 2010. p. 94. (tradução minha).

[4] João Paulo II proclamou Tomás Morus padroeiro dos Governantes e dos Políticos, destacando que ele não separou a conduta moral da política: “Ex eo quod usque ad sanguinis effusionem sanctus Thomas Morus testatus est plus posse veritatem quam imperium,ipse perenne morum constantiae habetur exemplar” (p.76); “Ab omnibus aestimatione affectus propter morum integritatem, aere ingenium, indolem liberam iocosamque, eximiam doctrinam” (p. 77); Homo a Deo seiungi non potest nec res politica a re morali: hoc fuit lumen quod eius conscientizam illustravit” (p. 79) (AAS 93 [2001], p. 76-79).

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