Será possível dialogar com o ateísmo? Talvez não, mas experimente fazê-lo com o ateu…

Permanecem desconhecidas sociedades de seres inteligentes, povos ou nações, que professem unanimemente a irreligião e sejam solidaria e pacificamente negadoras de qualquer fé. Registraram-se ao longo da história homens ateus, mas civilizações ateias estão por existir. Assim, é normal que tenhamos herdado alguma forma de crença ou professemos determinada religião. Entretanto, o ateísmo, ainda que em minoria, é um fenômeno a estudar… Durante muito tempo correlacionei o ateísmo com a simples negação de Deus, no sentido em que não se acredita num ser Omnipotente, Superior, Eterno ou qualquer outra divindade. Entretanto, depois de entretidas tertúlias e múltiplas leituras, entendo hoje o ateísmo como uma negação de Deus, mas noutro sentido, enquanto recusa do Ser e não como afirmação do não ser.

Em primeiro lugar porque haveria uma grande incoerência na ideologia ateia se discorresse e argumentasse com tanta insistência e prosopopeia acerca de algo que não tem a sua existência. Por exemplo, ninguém se preocupa em escrever livros, artigos, fóruns, blogs, para negar determinantemente a existência de unicórnios… Não se faz a apologética da inexistência daquilo que não existe. Simplesmente ignora-se, e a sua referência ou ingénua representação seria incapaz de inflamar sentimentos fortes, proporcionando antes neutralidade e distensão. Ocupar certo tempo em pensamentos e palavras relativas ao inexistente é uma perda de tempo, contraproducente para o exercício intelectivo, e implicará certamente a criação de sofismas. Esta incoerência, ultimamente, tem provocado a incapacidade de elaborar um feixe doutrinário coerente e uma oposição filosófica que noutros tempos deu muito mais trabalho à Igreja.1 Os hereges, os protestantes e os anticlericais foram capazes de constituir um verdadeiro desafio intelectual para o catolicismo ao longo dos séculos. Entretanto, os ateus investem que nem D. Quixote de lança (ou caneta) em riste contra… aquilo que eles mesmos não creem existir.

Se no campo filosófico a negação do não ser parece implicar discrepâncias lógicas e dialéticas, no plano científico causa igualmente desconforto e problemas incontornáveis. Claro, provar cientificamente a inexistência de Deus deve ser tão ou mais difícil que provar a sua existência. A herança cartesiana do conhecimento científico trouxe-lhes complicações acrescidas, pois nesse sistema o ser é questionado, dividido em partes simples, analisado, ordenado, experimentado… mas como fazer tudo isto com o não ser? É impossível! O processo indutivo não funciona com o que eles dizem ser inexistente… Talvez por isso Descartes era deísta: acreditava num Deus criador, causa, razão, e nós, um ser limitado, incapaz de inventá-Lo. Ou seja, se Deus não existisse talvez fosse impossível para nós concebê-lo (hipótese levantada cinco séculos antes por Santo Anselmo).2

Eu sei que muitos defendem que algumas descobertas científicas colocam Deus em causa. Será? A partir do método científico, poder-se-ia dizer que determinado processo, fenômeno ou efeito tem causas naturais explicáveis e prescindir do milagre ou do ato criador, mas isso não implica negar a existência de Deus. Afirmar que Ele não tem participação neste ou naquele processo dito “natural” é completamente diferente de colocá-Lo em causa e incapaz de delegar-nos a necessária autoridade ou competência para negar a Sua existência. Até para afirmar que Deus não fez ou criou eu preciso partir da hipótese que Ele existe e que algo foi feito ou criado, origem e consequência. Posso questionar a participação ou ligação entre ambos sem ter legitimidade para negar quer Um, quer outro.

Por falar em fazer e criar, eles são verbos transitivos que exprimem uma ação realizada por um sujeito relativamente a determinado objeto. Ainda que fosse elaborado o enunciado “o nada criou o Universo”, sem ferir a sintaxe do português, (a palavra “nada” que seria um pronome indefinido, apareceria aqui como substantivo masculino), entretanto, qualquer falante-ouvinte da língua portuguesa sentir-se-ia defraudado com a incoerência da frase e talvez alguns puritanos da linguística a considerassem agramatical. O nada não faz, nem é criador, nem… nada. É preciso muita “fé” no nada, no acaso ou no ninguém, para pensar que geraram tudo o que existe, e muita criatividade linguística para inseri-lo em frases como a citada. Assim, além das provas científicas da inexistência de Deus serem inacessíveis a qualquer experimento, processo mecânico ou tubo de ensaio, muitas coisas teriam de ser repensadas também no campo da Linguística.

Entenda-se que não estou a procurar desmerecer o ateu, mas a tentar compreendê-lo, pois só a partir da lógica e de posições bem definidas é possível estabelecer um diálogo que não seja falacioso ou caia em extremismos. Por isso eu parto do princípio que, tal como a Fé exige um ato de adesão e o concurso da razão, o ateísmo não é uma simples defesa incoerente filosófica e cientificamente, com incongruências linguísticas, mas a adesão a princípios e modos de vida que conduzem ao ato de incredulidade e à adoção de outros modelos que substituem Deus, providos de argumentações mais ou menos dogmatizadas. Uma recusa de certa forma consciente e mais do que a racional negação do não ser, é aquela opção que rejeita a possibilidade de Deus, exequível, por exemplo, no pensamento agnóstico. E esse repúdio à hipótese de Deus tem múltiplos fundamentos, esses sim, racionais, analisáveis do ponto de vista filosófico e da experiência cientifica, para os quais caberia um interessante estudo. Por exemplo: a incompreensão relativamente aos desígnios de Deus e um grande sofrimento na vida; uma vida desprovida de moralismos condicionantes para tal ato ou escolha; um desejo de fruição desregrado e insaciável; a negação a toda e qualquer forma de autoridade; a desilusão ou o escândalo atribuído a uma Instituição religiosa devido a atitudes incorretas dos seus membros; um desejo de autoafirmação e elevação do ego que não deixa espaços para o outro, e muito menos para o “totalmente Outro” (Karl Barth), entre muitos argumentos que não caberia aqui enumerar.

Muitos destes pontos e desafios são dialogáveis, neste areópago plural do mundo de hoje, permitindo-nos um frutífero diálogo e a evangelização, mesmo com aqueles que se dizem ateus, e aportar-lhes algo tão importante como necessário: a misericórdia de Deus.

Pe. José Victorino de Andrade

__________________________

1 Desenvolve esta temática BENTLEY HART, David. Atheist Delusion: Revolution and its fashionable enemies. London: Yale University Press, 2009.

2 Ver esta ideia e a questão de Deus para Descartes em HOTTOIS, Gilbert. História da Filosofia. Lisboa: instituto Piaget, 2002.

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