A estética moral para Edgar de Bruyne

BRUYNE, Edgar de. L’Esthétique du Moyen Age. Louvain: Éditions de L’Institut Supérieur de Philosophie, 1947. p. 109-113. Introdução e tradução a partir do original em francês, pelo Pe. Dr. José Victorino de Andrade. Manteve-se a metodologia, além das citações latinas clássicas no corpo do texto, optando-se pela tradução em rodapé.

No terceiro capítulo desta obra, Edgar de Bruyne[1] começa por apresentar algumas definições etimológicas de estética, apresentadas na Idade Média de acordo com o método próprio a este período. Em seguida, aborda a multiplicidade e riqueza de sistemas estéticos, como o imediato, moral, sapiencial e místico. Após compendiar um conjunto de considerações em torno do belo, enquanto experiência que parte da contemplação das coisas exteriores, das maravilhas e belezas das criaturas de Deus, baseando-se sobretudo em Hugo de São Victor, o autor convida à reflexão sobre um outro sistema, o introspectivo, proposto pelo escolástico Guillaume d’Auvergne.

A Estética Moral

Enquanto Hugo de São Victor e a maior parte dos autores se apoiam na experiência externa, Guillaume d’Auvergne leva-nos a algo inteiramente diferente, fazendo um apelo à introspecção: “Se nós queremos saber se uma forma é feia ou bela, não temos senão que consultar o nosso senso íntimo. Se nós queremos definir aquilo que é belo, consultemos nossa experiência interna”.[2] O autor que inspira Guillaume, em primeiro lugar, é Cícero. Tal como este em De oficiis, Guillaume em De bono et malo funda toda a sua estética no paralelismo da beleza moral, que é o Bem, e o belo sensível.

Guillaume pertence à linhagem dos esteticistas que insistem no caráter indivisível e de certo modo indefinível do belo. É um pressuposto, diz Santo Ambrósio e Robert Grosseteste após ele, o caráter esteticamente agradável da sensação luminosa ou colorida. Não é necessário procurar em outro lugar, como por exemplo, na relação de partes objetivas que lhe fossem subordinadas.[3] Os árabes dizem a mesma coisa que os ocidentais:

A beleza visual – repete Witelo transcrevendo Al-Hacem -, se identifica com a percepção simples de formas visíveis que agradam à alma. Não é que secundariamente aquela caracterize formas compostas seguidamente à lei das proporções convenientes: ‘Pulchritudo ex comprehensione simplici formarum visibilium placentium (per se) animae‘.[4]

Assim, tanto os orientais quanto os ocidentais remetem-nos para os gregos, que por sua vez inspiraram Cícero e seu admirador medieval. Sem dúvida, podemos admitir duas espécies de beleza. Quando nós vemos alguém empreender um ato heróico, espontaneamente dizemos que isso é bonito: a beleza, nesse caso, é moral, espiritual, puramente inteligível. Se prestarmos atenção numa forma sensível e que consideramos agradável à vista, nós a dizemos bela: trata-se, aqui, da beleza visível. Essas duas formas de beleza são paralelas: é suficiente, para nos convencermos disso, analisarmos a maneira como nós as percebemos.

Se refletirmos na estrutura do ato moral que denominamos “honrar os parentes”, vemos que a intuição desse ato nos é agradável, que logo no começo aprovamos essa ação e espontaneamente louvamos aquele que a cumpre; julgamos tratar-se de algo conveniente. A beleza inteligível é, então, uma forma espiritual que aparece como deleitável à nossa experiência íntima, porque pela sua natureza é considerada como anterior ao nosso prazer: “natum est per se ipsum placere“.[5] Se agora quisermos saber o que é a beleza visível, consultemos novamente as reações de nossa sensibilidade, desta vez na sua dependência face aos sentidos externos. Confiemo-nos ao seu testemunho, como no caso da consciência moral.[6] O que é a beleza visível? Uma forma que nos parece de maneira anterior, de direito e por ela mesma, deleitar a visão daqueles que a observam: “Pulchrum visum dicimus quod natum est per se ipsum placere spectantibus et delectare secundum visum“.[7]

Eis-nos diante de uma concepção original da beleza. Não se trata mais de a definir por ações sensíveis de harmonia, de grandeza, de cor, mas de fazer um apelo a uma noção mais espiritual: aquilo que convém de direito. Levamos em nós mesmos uma aspiração incompreensível ao ideal, à perfeição, àquilo que nós julgamos “dever ser”. Desde que um dado, seja ele qual for – moral ou sensível -, apareça na consciência com as qualidades “daquilo que convém de maneira absoluta” e nos sobressalte de emoção, nós somos agradavelmente surpreendidos, empreendemos o louvor e julgamos que “devemos fruir”. Ao caráter objetivo “quod per se decet“,[8] corresponde uma reação subjetiva que se impõe de direito: “Quod natum est per se ipsum placere et delectare“.[9]

O belo nasce, portanto, do encontro do dado (considerado na sua estrutura conveniente) com a nossa alma (de acordo com sua tenção para um ideal). Desde que o contato se faça, produz-se necessariamente (natum est), por sua vez, visão e prazer: “Est enim delectatio conjuntio convenientis cum conveniente“.[10]

Não procuremos mais longe. Para definir a beleza moral de um ato como o de “honrar os parentes”, basta constatar que a percepção do sentido de um tal ato agrada imediatamente, de modo natural, pela sua “conveniência” à nossa consciência íntima, que não é senão o sentido espontâneo do nosso élan para o conveniente ou o belo. Mesmo quando queremos definir a beleza física de uma simples cor, não é necessário referirmo-nos a outra coisa que não seja a relação da coloração à sensibilidade estética do olhar: “Ab ipso colore non est separabile actu vel ratione hoc ipsum quod est visibile et hoc est quoniam visibilitas essentia ejus est“.[11] A essência da cor se identifica com a percepção, mas a própria percepção não se distingue do prazer estético: “Nec aliud est delectatio subjecto et essencia quam visio ipsa… necessario (enim apprehensio) delectabilis“.[12]

Está claro que partindo destas bases, Guillaume projeta por sua vez a estética na moral, e a moral na estética. Teremos apenas de segui-lo na sua comparação da consciência do bem e do mal com a do belo e do feio.

Não haveria vantagens em salientar, neste momento, as influências aristotélicas que traem seu ciceronianismo, em particular na sua interpretação emocionalista da consciência. Se a alma, como ele a considera, não se distingue das suas faculdades, conhecer é experimentar sentimentos. Ver o belo está em fruir, porque isto é o ato de amar.[13]

Quanto às consequências da emoção estética, procuremos recordar o essencial: a percepção é acompanhada do prazer ou todavia se identifica com ele; o prazer é seguido de uma aprovação, “puchrum laudabile est“,[14] e esta última, de um élan para o belo, “intuentium animos delectat et ad amorem sui allicit“.[15]

Tudo isso se explica metafisicamente de acordo com os princípios tradicionais: “Nada é belo, que não agrade a Deus”. Se, em consequência, nós nos deleitamos espontaneamente com o belo, é porque, na forma “que convém por si mesma”, descobrimos um reflexo de Deus, que é o Ideal absoluto, isto é, que se impõe como absolutamente digno do ser. Em nossa alma “que se reporta à bela forma”, sentimos de maneira confusa um élan enigmático para Deus. O sentimento confuso – mas quão profundo e deleitável -, do belo, seja moral, seja físico, é portanto o sinal do reencontro consciente de uma parcela realizada da almejada perfeição, com nosso movimento pré-consciente rumo ao ideal infinito.

Guillaume ainda vai mais longe: a ação das criaturas não é senão uma expressiva parte da Atividade divina que lhes é imanente. O desejo do belo, a alegria da visão, o élan para a beleza, é a Atividade primeira que se manifesta: “Hoc cogit vehementia et velut torrens primi fluxus“.[16] Deus nos preenche à maneira de um rio de bondades, à semelhança de uma torrente de suavidades que inunda veementemente inumeráveis córregos e riachos.[17] Não é apenas a Beleza divina que nós fruímos nas belas formas criadas, mas a nossa própria potência de fruir é um sinal particular de seu Ato presente e agindo em nós.[18]

In: VICTORINO DE ANDRADE, José. Lumen Veritatis. São Paulo: ACAE, jan-mar 2011. Ano IV. N°14. p. 121-124.

______________

[1] Edgar Firmin Eugène Gustave Corneille de Bruyne (†1959), belga, especializou-se em filosofia medieval e fez o seu doutorado na Universidade de Lovaina com a tese La théorie de la personalité d’après St.-Thomas. Foi professor na Universidade de Gand. Deixou-nos numerosos livros e escritos de filosofia da arte e estética medieval.

[2] Etudes d’Esthétique médiévale, III, 72, 75. [Doravante, usaremos a abreviatura Et.].

[3] Cf. Supra, p. 76.

[4] A beleza da simples compreensão das formas visíveis agrada (por si) à alma (Et. III, 245).

[5] Nasceu para agradar por si mesmo (Et. III, 75).

[6] Ib. 75.

[7] Dizemos que a beleza visível nasceu por si mesma para agradar aos que a contemplam e deleitar através da visão (Ib. 73).

[8] Que convém por si.

[9] Que nasceu para agradar e deleitar por si mesmo.

[10] O deleite é efetivamente a união da conveniência com o conveniente (Ib. 77).

[11] Da própria cor não é separável pelo ato ou pela razão aquilo que é visível devido à visibilidade pertencer à sua essência (Ib. 86).

[12] Nem é outro deleite sujeito e essência quanto a própria vista… necessariamente (na verdade percepção) deleitável (Ib. 82).

[13] Ib. 80, 81, 72.

[14] A beleza é louvável.

[15] Contemplando deleita as almas e alicia para o seu amor (Ib. 72).

[16] Por isso aumenta o volume com veemência tal como a torrente do primeiro fluxo (De Trin. XI, 15b-16a).

[17] Ib. XI, 16ª et XII, 16b (cf. J. de Finance, Etre et agir, 1945, pp. 216 ss).

[18] J. de Finance, Op. cit. p. 217.

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