Os perigos de uma ética ao sabor das modas

Ao pensarmos numa sociedade que se atem a certos parâmetros e critérios enquadrados somente em valores ditos de primeiro mundo, procurando qualidade de vida mensurada por vários valores de referência tais como máquinas, técnica, alta esperança média de vida… tudo isto é bom, mas está longe do excelente se não for acompanhado de uma forte estrutura moral. Uma vez que as raízes cristãs do Ocidente são um facto histórico inegável e incontornável, a moralização dos povos está na base de uma construção civilizacional que veio a sofrer uma forte rutura quando quis dissociar a moral da religião e fundamentá-la na mera razão. Kant não nos é um nome estranho, nesse sentido. E, de acordo com o Cardeal Elio Sgreccia, presidente da Pontifícia Academia para a Vida, o “silêncio da metafísica”, deu lugar ao relativismo, a uma ética racionalista laica, que não deveria deixar de se confrontar com o absoluto, pois a razão pede ao homem que se confronte com valores humanos e normas éticas cuja origem é transcendental.[1]

Adverte Teixeira Cunha, no seu Manual de Bioética, que a falta de confrontação com a evidência metafísica e o Absoluto nos pressupostos desta matéria, leva a um “bater de asas no vazio de uma egolatria sem horizonte”, pois “justificar racionalmente a norma do bem moral” não deve excluir, quanto ao seu juízo, a consideração do pensamento religioso e teológico cristão.[2] Não nos podemos esquecer que, por detrás de toda uma cultura atual, está todo um património, também ele moral, que progrediu, na medida em que acrescentou novas coisas às já existentes. O problema é que muitas vezes certas premissas válidas, imutáveis e perenes são esquecidas ou deliberadamente postas de lado, em nome de certa cultura apelidada de moderna, sobrepondo-se o novo e despojando-se o existente.

Aquilo que tem o seu fundamento em Cristo goza de uma perenidade, que apenas deve ter em vista as diferentes maneiras e riquezas de serem apresentadas às várias culturas. A Lei moral da Igreja possui as suas raízes em Nosso Senhor, e portanto, na lei Eterna, além de estar também fundamentada na lei inscrita no coração dos homens, a natural. Uma ética sem qualquer fundamentação teológica ou metafísica está sujeita às frágeis bases do compromisso social.[3]

Pe. José Victorino de Andrade

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[1] Cf. SGRECCIA, Elio. Manuale de Bioetica. 4. ed. Milão: V&P, 2007. Vol. 1. p. 30.

[2] Cf. TEIXEIRA DA CUNHA, Jorge. Bioética Breve. Apelação (Portugal): Paulus, 2002. p. 6.

[3] Algumas ideias deste parágrafo estão fundamentadas na conferência feita pelo Arcebispo Jean-Louis Bruguès, abordando a Encíclica de João Paulo II Veritatis Splendor, no Seminário São Tomás de Aquino (São Paulo – Brasil) no dia 1 nov. 2010. Ver também o nº 53 do documento.

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